Djédjé di Nhô Antóni, viu São Pedro!

Após as estrondosas notícias dos últimos dois dias ... :

  • 25 de Junho - " O cantor e compositor Michael Jackson, 50, morreu às 18h26 (horário de Brasília) desta quinta-feira (25), após sofrer uma parada cardíaca em sua casa, em Los Angeles. Segundo o jornal "Los Angeles Times", os médicos do hospital da Universidade da Califórnia confirmaram a morte do cantor, que teria chegado ao local em coma profundo" - [in UOL]
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  • 26 de Junho - "Cidade da Praia, 26 jun (Lusa) - A elevação da Cidade Velha a Patrimônio Mundial da Humanidade, anunciada nesta sexta-feira pela Unesco, marca um projeto iniciado há uma década e vai permitir o desenvolvimento do primeiro núcleo populacional surgido na ilha de Santiago, em Cabo Verde. Também conhecida por Ribeira Grande de Santiago, a região foi descoberta pelos portugueses em 1460 e, dois anos mais tarde, foi fundada no local a primeira cidade do mundo construída por europeus nos trópicos." [in LUSA]

 

Vejam o que eu dizia a este respeito em 31 de Janeiro de 2007 :
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... chegamos a este Domingo, véspera de São Pedro, com vontade de regressar ao sopé do Vulcão do Fogo e desfrutar a calma ali reinante:
 

 

Mas, ... porque resolvera eu ir ao Fogo há dois meses atrás e levar minha mulher comigo? Precisamente para apreciar in loco o que eram as "festas da bandeira" e ter uma visão daquilo que minha avó Quinha, tios e primos contam a propósito da "Bandeira di nhô San Pedro" que tem "estado na família" desde que meu bisavô Djédjé di Nhô Antóni a tomou!

 

 

Eis a história:

 

José António da Silva pertencia a uma família de posses, filho do major António José da Silva, influente personagem do século XIX na ilha do Fogo. Conhecido por Djédjé di Nhô Antóni, José da Silva possuía um navio, de que era capitão, que fazia viagens entre Cabo Verde e os Estados Unidos, no início do século XX. Embora tivesse ganho muito dinheiro com este circuito, Djédjé transportava de graça para os USA, muita gente pobre e era um homem conhecido pela sua bondade e devoção religiosa. Numa de suas viagens de regresso da Nova Inglaterra, Djédjé apanhou um violento temporal e o navio teve um rombo, começando a entrar água. O naufrágio era iminente. Meu bisavô, poz-se de joelhos e começou a rezar fervorosamente. Nisto, fez-se um clarão (provavelmente de um incêndio na rectaguarda) e Djédjé exclama "Nhu San Pedro! nhu salvan!". E não é que uma embarcação que passava ao largo do escuna, vê as chamas e vem em socorro de Djédjé e da tripulação?

 

Desde então, José da Silva prometeu usar o resto de sua fortuna, promovendo as festas da "Bandeira de nhu San Pedro", até que a morte o levasse. Só que as estrondosas festas foram-se desvanecendo (de tal sorte que já nem delas se falam nos artigos nacionais: ver aqui) à medida que os anos se passavam e que a fortuna de Djédjé definhava. O homem viveu 96 anos!

 

Hoje, com muito pouca festa, ainda se diz a missa e se entrega a bandeira ao padre. A bandeira continua na nossa família e é sustentada pelo neto "Nénezinho", que vive nos Estados Unidos.

 

O ponto alto das festas de São Pedro no Fogo recai sobre o então célebre Canizade (uma espécie de dança, com máscaras e saiotes de palha). Este tem lugar na véspera do dia da festa. Hoje, dia 28 de Junho é vespera de Nhô San Pedro! Haverá Canizade no Fogo? NB: segundo Henrique de Pina Cardoso:

 
"Canizade, úndi qês canizade tã badjabo, tê de pramanha… Rôpa de canizade êh um s’péce de máscra, qi tâ parce qês índio maricano, qú qês saia de padja, qês latas pindrado, suma qês tchocadjo qi tâ podo na limária pâ bú sabê úndi ês s’ta tâ anda."
sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 09:55 | link do post | comentar