Sábado, 22.08.09

De Morais e Castro aos burros do "Tonecas", da Eulália e do Maio

Pois é! Até parece que os meus mais queridos actores cómicos portugueses, teimam em me pregar sustos, indo desta para a melhor! Acabo de chegar de férias, da Ilha do Maio e qual não foi o meu espanto ao sintonizar a SIC notícias e me dar conta do enterro do célebre professor das Lições do Tonecas. É esse mesmo, José Armando Tavares de Morais e Castro:
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Segundo o Jornal Público:
É da televisão que o grande público terá uma imagem mais vívida de José Armando Tavares de Morais e Castro, das séries e novelas da RTP e da TVI às Lições do Tonecas (1996/8), mas foi no teatro que se estreou, ainda no liceu, e que mais trabalhou ao longo de mais de 50 anos de carreira. Dirigente da Casa do Artista, onde residia nos meses que antecederam o seu internamento, casado com a actriz Linda Silva, Morais e Castro nasceu em Lisboa a 30 de Setembro de 1939.
Assim como Solnado, faltavam-lhe poucas semanas para completar uma idade a números redondos: 80 para Solnado, 70 para Morais e Castro. Ambos nos divertiram imenso e não falhava nenhum episódio das Lições de Tonecas. Vejam um extracto de um deles:
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As aulas desta série até me fazem lembrar a escola da Dona Eulália, onde passei bons momentos e episódios do mesmo tipo que os das referidas "Lições do Tonecas". Dona Eulália era uma Setubalense, casada com um funcionário, salvo o erro dos TACV, o Sr. Arlindo. Na escola particular dela, éramos poucos e lembro-me dos terríveis irmãos Pinto Eliseu, das gémeas Ruth e Marilu, do Jorge Manuel (filho da professora), do Nando, do Necas, do Carlinhos, do Jorge Ribeiro, da Tó, e de alguns outros mais. Não eram raras as sandices à moda do Tonecas: uma vez, a professora pediu que falássemos dos tipos de sangue que circulam no corpo humano e uma das gémeas disparou sorridente: "sangue arterial e sangue venenoso!"

 

Gargalhadas e "burra!" foram as explosões que se sucederam. Dona Eulália fazia um esforço para ela também conter o riso e repreendia os que chamaram a pobre colega, agora chorosa, de "burra". Lá foi ela dizendo que as pessoas não são burras e que este animal até era bastante astuto e alerta.

 

A propósito de burros astutos e alertas, não posso deixar de manifestar a minha tristeza pela extinção dos burros selvagens da Ilha do Maio. Com efeito, há 16 anos quando lá tinha ido pela última vez, pude ver esses soberbos animais correr sobre as calcáreas pedras da ilha e a se esconder entre os arbustos da famigerada Prosopis juliflora. Esses burros eram, segundo os camponeses do Maio, impossíveis de domar; para os ter era necessário capturá-los bebés e criá-los com cuidado. De cor bege, estes animais ostentavam uma listra castanho escura a negra, na base do pescoço. Infelizmente, a seca fê-los morrer de sede ao longo dos anos e hoje já não os há selvagens! Também verifiquei com amargura que o número e a variedade ornitológica diminuiu grandemente. Onde estão as lindas aves do Maio? Porque não houve declaração de "zonas naturais protegidas" para o Maio? Houve sim a designação de ZDTIs (Zonas de Desenvolvimento Turístico Integrado) que muita polémica fez surgir (ver aqui por exemplo) .

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Fiquemos agora com um documentário sobre esta magnífica ilha do Maio, que aos poucos vai despontando para um turismo promissor (ZDTI aqui):
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sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 22:38 | link do post | comentar
Domingo, 15.03.09

Será púdica a Mimosa?

Desde criança que a frase "toma sima nau-mi-toques" me impressiona. Esta frase era pronunciada geralmente em resposta a uma atitude com contornos de susceptibilidade exacerbada. Claro que cedo soube se tratar de uma planta cujas folhas se fechavam ao mais ligeiro toque. Sempre quis conhecê-la mas por muitos anos nunca tive o ensejo.
No início dos anos noventa do século passado, chefiava o Departamento de Recursos Naturais do Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário e tinha a tutela do primeiro jardim botânico da República de Cabo Verde. Foi então que pela primeira vez me cruzei com essa dama que ostenta o nome científico de mimosa pudica. Porém, só ali estavam dois exemplares e mesmo assim escondidos do público, no viveiro do Jardim!
Dezanove anos depois, numa das minhas visitas ao Jardim Botânico, lembrei-me de perguntar pela "sensitiva", outro nome da "não-me-toques". E levaram-me ao viveiro onde pude perceber num periclitante vaso, uma mirrada planta que provou ser a dita cuja, após um toque que lhe fiz.
Não resisti em filmar a coitadinha com a câmara de meu telemóvel, não vá ficar sem poder ter uma recordação visível da mesma. Embora se possam encontrar outras filmagens de púdicas mimosas na Internet, é com muito gosto que coloquei a que fiz no YouTube e vo-la apresento aqui:
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sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 17:54 | link do post | comentar
Domingo, 31.08.08

Há 250 anos que o "Fonfon" tem nome científico

Como já é do vosso conhecimento pelo artigo (Kutum Ben Ben, dan papa pan dau leti...) que publiquei em Março 2008, desde cedo tive uma paixão pela entomologia, pelo que, além de estudar os insectos da terra, fazia colecção deles. Este gosto adveio da leitura (aos 11 anos) do livro "o Mundo dos Insectos" da colecção Ver e Saber da Verbo.

Um dos insectos que mais me apaixonava observar era o Fonfon, uma espécie de vespa de amarelo e preto que faz "casa-fonfon" de "papa-lama" pelos cantos dos quartos e debaixo dos móveis das nossas casas. Voltarei a este insecto daqui a pouco. Porque me lembrei então de falar dele? Eis a razão:

Estive hoje a arrumar as velharias que guardo e deparei com a caixa de insectos da minha colecção (a que apresento nesta figura de 1972) em deplorável condição: o tempo (36 anos) desfez a maior parte dos insectos. De imediato resolvi fotografar o que da caixa restava: vejam a figura anexa. Reparei então no insecto ao lado esquerdo da borboleta e lembrei-me do bicho e da data de sua classificação científica: Agosto de 1758 por Lineu. Trata-se do Sceliphron spirifex Linnaeus 1758. Vale a pena comemorar estes 250 anos e partilhar convosco a efeméride e os pormenores que se seguem:

A mulher-a-dias (sampadjuda do Fogo com a proverbial mania do "cau limpo e fréscu") que vinha limpar-nos a casa todos os Sábados, Lia Baptista de Sousa de seu nome, fartava-se de barafustar contra os fonfons que lhe tornavam a tarefa mais difícil, tal a sujeira deixada pelos ninhos de barro que aqui e ali implantavam. Olhava-me de soslaio quando lhe implorava para não destruir, pelo menos um desses ninhos, pois queria eu observar o evoluir da construção. De facto era algo maravilhoso seguir o trabalho destas vespas solitárias:


    .
  • Em seguida, o nosso fonfon carrega a bola de lama até ao sítio onde pretende construir o ninho e começa a trabalhar essa bola em anéis que irão formar células oblongas. Enquanto faz este trabalho emite um som típico: fon-fon-fon-foooon-fon, donde o nome onomatopaico que lhe deram aqui em Santiago. No Fogo "fonfon" é uma outra vespa e o nosso querido Sceliphron spirifex é em São Nicolau conhecido por "bananinha séca". NB: no Fogo o Sceliphron spirifex é conhecido por "custon fagássa".
  • Á medida que o fonfon termina uma célula, deposita dentro um ovo e vai à caça de aranhas saltitonas (os "cachorrinhos-lau-lau" por exemplo) e outras pequenas aranhas que caça sem piedade. Enche as células dessas aranhas vivas, mas por ele paralisadas (comida para o filhote) e tapa com lama.
  • Começa então a construção de uma nova célula. As células se empilham umas em cima das outras formando a tal casa fonfon que bem conhecemos. Como faz uma célula de cada vez, vai à caça e começa uma nova célula, muitas vezes não encontra a lama no mesmo sítio e a casa (ninho) tem várias cores (fazem-me lembrar algumas construções aqui do burgo).
  • Se quebrarmos uma destas casas, encontraremos células com as tais aranhas e com larvas de fonfon em diferentes estádios de metamorfose. É muito engraçado observar a reacção do fonfon quando regressa e encontra o ninho danificado: faz um ruído "fonfónico" estridente (como quem manda à pqp) e esvoaça desairado à procura do vândalo (é observar de longe, não vá a vespa ferrar o observador; mas o bicho não é agressivo). E depois se estranha que um insecto tenha... sentimentos!

Há uma outra espécie de fonfon em Cabo Verde que em vez de aranhas caça lagartas. Estes fonfons, são negros de antenas laranja e também fazem ninhos de barro. Esses ninhos são redondos (mais parecem igloos esquimós) e eles os dispõem uns ao lado dos outros.

Sem esquecer de mencionar os aspectos ecológicos das vespas, como os da luta integrada contra as pragas agrícolas, termino, remetendo-vos para uma página francesa com belas fotos do fonfon, que eles chamam de pélopée tourneur. Vejam mais fotos deste himenóptero: fonfon, vespa-oleira (em Portugal) ou também guêpe maçonne:
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publicado por jorsoubrito às 18:10 | link do post | comentar
Sábado, 19.04.08

Acácia Americana - a árvore entre a asma e um sublime mel de abelha

Prosopis Juliflora - como me posso esquecer deste nome?... se em pelo menos seis circunstâncias este nome foi esculpido na argamassa de meu encéfalo. Ei-las:
  1. Comecei a coleccionar folhas entre páginas de livros grossos e tenho um olfacto apurado.
  2. Participei nas primeiras plantações de árvores em Cabo Verde, após a independência.
  3. Doutorei-me no Arizona, adoro grelhados (barbecues) e aprecio mel de abelha.
  4. Tenho António Advino Sabino entre meus melhores amigos e o meu PhD é em Ciências do Solo e da Água.
  5. Escrevi 50% do Relatório de Cabo Verde à Conferência sobre o Ambiente e Desenvolvimento - Rio 92
  6. Via (e vejo) a praça Alexandre Albuquerque das janelas de minha casa, sofria de bronquite asmática em criança e tenho um filho alérgico a pólen.
Cada um destes pontos dá para escrever uma longa crónica. Tenham então a paciência de ler estas mais reduzidas crónicas que se seguem:
  1. Como já tive a ocasião de vos deixar saber, na minha puberdade e adolescência adorava conviver com a Natureza e fazia colecções de insectos (com um anexo de borboletas), rochas, conchas e folhas de plantas que prensava entre as páginas de velhos e grossos livros de contabilidade do meu avô materno, comerciante falecido em 1948. A Praia-Negra e a encosta debaixo do Hospital, eram meus lugares habituais de recolha das mais diversas amostras. A referida encosta era atapetada de Jatropha Curcas, o Pinhão Manso brasileiro que em Cabo Verde responde pelo nome de Purgueira; em poucos anos a acácia americana (a tal Prosopis Juliflora) substituiu a purgueira e acabei por tentar prensar as folhas e flores dessa acácia entre as tais páginas de contabilidade. Foi nesta tentativa de prensar as folhas da acácia, que o meu olfacto apurado discerniu um odor vagamente familiar que reportei porvir da seiva das folhas em questão. Poucos dias depois, um amigo mais velho transfigurou-se, passando de um cenho franzido (ao cheirar as folhas esfareladas que eu lhe estendia entre os dedos) a um rasgado sorriso, proferindo entre gargalhadas: "Queli... tâ tchera só cabxxxxx!" e cheirava mesmo a sémen humano fresco! Foi a primeira marca indelével da Prosopis na minha mente.
  2. Após a Independência de Cabo Verde, em 1975, o Governo defrontou-se logo com um problema candente: Energia! o Mundo sofria ainda dos efeitos do "crash" petrolífero de 1973 e o humilde camponês cabo-verdiano cozinhava cachupa com lenha (esta representava mais de 80% do combustível rural). A FAO aconselhou o Governo a desencadear uma vasta campanha de florestação tendo financiado conjuntamente com a cooperação belga, a introdução maciça da acácia americana. Esta não só era resistente à seca, como também, em menos de 3 anos, iria produzir bastante lenha e vagens para as cabras e demais alimárias. E sendo assim, lá estou eu a participar nestas campanhas de florestação com saquetas de Julifloras entre as mãos! (2ª punção cerebral).
  3. Ao chegar a Tucson para estudar na Universidade do Arizona, reparei que ali também havia nas ruas uma planta muito semelhante à nossa Prosopis Juliflora. Chamavam-na de Mesquite e diziam que dava um carvão formidável para os famosos barbecue. Mais tarde vim a saber, que o mel das abelhas que sugavam o néctar das flores dessa árvore, era considerado pelos entendidos, como um mel monofloral classificado entre os melhores do mundo. Quando usei o carvão de Mesquite (mais caro) e experimentei o não menos caro "Arizona mesquite honey", adoptei-os e assim a Prosopis Juliflora Velutina (a espécie do Arizona) foi a 3ª marca indelével da acácia nas minhas memórias.
  4. Tinha então a acácia americana em muito boa conta e podia-se até dizer que era um fã deste ser vivo extraordinário. Até que em Tucson conheci de perto António Advino Sabino, o engenheiro agrónomo responsável pelos fantásticos trabalhos de correcção torrencial, luta contra a erosão das encostas, enfim, o conhecido Director Geral da Conservação de Solos da jovem República de Cabo Verde. Uma grande amizade nasceu e um belo dia, conversa puxa conversa, lá estava eu a gabar as virtudes da Prosopis... quando Sabino me interrompe quase que vociferando: "Ó rapaz, tchá diss! Ês é maior praga quês btá na Cabo Verde!" ... e lá foi ele me elucidando que a referida acácia tinha sido banida internacionalmente (proibida mesmo) pelas suas características infestantes, que só no Arizona era permitida por causa do mel e do carvão ... e em Cabo Verde pela ignorância dos então governantes. Mais dizia ele que a planta suga a água a mais de 4 metros de profundidade (o lençol freático da ilha do Maio onde temos o maior perímetro de Julifloras, desceu de tal modo que os poços secaram) e que onde ela entra nada mais cresce! Antes que meu amigo se tornasse apoplético, apressei-me a concordar com ele, mas céptico e cauteloso como era (e sou), lá fui agendando incursões às bibliotecas para me elucidar (a Internet ainda não era para nós, pois estávamos em 1987). O que li e aprendi, conjugado com o que de solos percebia, me fizeram doravante alinhar ao lado de Sabino, na luta contra a continuação do uso indevido da acácia americana em Cabo Verde. Foi esta a 4ª marca!
  5. Regressado ao INIDA em 1990 com meu PhD acabado, fui chamado a chefiar o Departamento de Recursos Naturais desse Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário. Em 1991 Sabino tornou-se Presidente do INIDA e juntos fomos a algumas conferências sobre o Ambiente. Eram oportunidades para desancar sobre a Juliflora e uma vez, numa entrevista à RCV no Mindelo, contrariei a campanha do Presidente da Câmara em prol da plantação da Prosopis,... alegando que, "a questão não é como alguns andam aí a propalar." Só que a boca resvalou para "...andam aí a papaguear!" Entretanto, Sabino orgulhava-se de ter introduzido no país uma espécie muito melhor, a Acacia holosericea (de origem australiana) que, também resistente à seca, não era nem infestante, nem esterilizava os solos. Quanto a mim, fui convidado a integrar uma equipa de quatro consultores para escrever o relatório de Cabo Verde à Conferência do Rio e aproveitei para nos 25% que me couberam, escrever 50% do relatório e dizer entre outras coisas, o que competia sobre o uso da Prosopis Juliflora em Cabo Verde. Porém, salientei que pelo facto de Cabo Verde possuir uma abelha europeia dócil (uma Apis Mellifera diferente da feroz abelha africana) e reputada por fabricar um bom mel, devia-se apostar na apicultura e aproveitar melhor as acácias. Este relatório impôs-me a quinta marca!
  6. Com esta recente marca avivada na cabeça, tudo era pretexto para maldizer a acácia americana. E para cúmulo, a paisagem que vislumbrava através das janelas da minha casa era por demais elucidativa do poder aniquilador da famigerada Prosopis. Vejam o estado calamitoso dos canteiros da Praça Alexandre Albuquerque, cuja foto da época (1991) vos apresento ao lado. Nesse ano nasceu meu filho Mauro, que pouco tempo depois acusava violentos sintomas de falta de ar, rapidamente diagnosticados como provocados por alergia a pólen de acácias. Por ter sido asmático em criança, sabia avaliar o sofrimento do petiz. Assim, creio ser esta, entre todas, a pior referência à Prosopis !
Obrigado pela vossa paciência em ler estas linhas. Que aconselharia para as políticas concernentes a esta acácia?

Obrigado e até ao próximo Domingo.
publicado por jorsoubrito às 22:46 | link do post | comentar | ver comentários (1)

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