Domingo, 09.08.09

A Electra levou-me de Gatas à Gamboa

Mas que fim-de-semana! Sob o signo do 25º Festival da Baía das Gatas (ver aqui) vários acontecimentos marcantes tiveram lugar, sendo o que mais me entristeceu, o do falecimento de Raúl Solnado. Aquando do seu 79º aniversário, tive o prazer de lhe dedicar um artigo, que poderão rever aqui. Após ter ouvido a notícia na RTP-África, mudei de canal para ver em directo o que se passava na Baía das Gatas.

  

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Coloquei a janelinha televisiva no canto superior esquerdo do monitor do PC e comecei a engendrar o artigo que iria escrever neste blog. Apetecia-me falar de Mimetismo e até publiquei no meu recente fotolog, uma fotografia que tirara de um Louva-a-Deus entre as folhas de um feto. Mal se vê o animal (assim como mal se vêem estes, duma coleccão da National Geographic).

 

De repente, a Electra (famigerada companhia cabo-verdiana de águas e electricidade) resolve cortar a corrente eléctrica do meu bairro, ficando eu às escuras com o rato na mão e metade do meu artigo em águas de bacalhau. Às apalpadelas fui-me deitar.

 

Mas quem disse que ia poder dormir? Nem eu nem ninguém em casa o pôde fazer. Os mosquitos invadiram nossos quartos e eu fui a principal vítima. Sem electricidade os ventiladores não podiam dissipar o dióxido de carbono nem evaporar o nosso suor. Assim, o dióxido de carbono por nós exalado e o suor não evaporado, foram os principais atractores dos hediondos insectos. Na realidade os mosquitos são atraídos pelo CO2 que expiramos e pelo ácido lácteo de nosso suor (sendo eu o mais volumoso, produzo mais destas substâncias e sou a 1ª escolha desses dípteros). Passei a noite, com uma lanterna na mão esquerda, a dar-lhes palmadas esborrachantes (contra a parede) com a direita, ao mesmo tempo que praguejava e exigia nosso sangue de volta.

 

E pensar que durante a minha puberdade já fui criador de larvas de mosquito! Tinha vários bocais onde as criava. Até gostava delas. Maluco eu? Não, fazia isso por várias razões, entre as quais a científica. Porém, a principal razão era como alimento vivo para os meus peixinhos de aquário, sobretudo para os Guppys, extraordinários animais ovovivíparos cujos machos eram um regalo para nossos olhos, tais eram as variegadas cores ostentadas pelas barbatanas e caudas. As fêmeas dos guppys são desprovidas de graça, pois acinzentadas e gordinhas passam despercebidas. Porém, são utilizadas no combate aos mosquitos em águas estagnadas de riachos, lagoas e gamboas (atenção a este nome, já volto a ele). Convido-vos a assistir este clip onde se pode ver fêmeas de guppy a caçar larvas de mosquito:

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E nós na Praia até temos uma gamboazita em frente da central eléctrica (Electra e Mosquitos, os agressores do dia). Segundo os entendidos: "Esta designação, totalmente popular, é o nome dado a um braço de rio de mangue, que não tem nascente e está sempre sob influência da maré. Tanto que na maré baixa uma gamboa pode ficar completamente seca." (tirado daqui). E esta gamboa (ao lado do bar Motcha) deu o nome à praia de mar onde se insere, que se tornou igualmente famosa pelos seu Festival da Gamboa! Não pude então deixar de associar a Baía das Gatas à Gamboa. Comecei a noite com a música (carnavalesca) das Gatas e terminei com o carnaval dos mosquitos da Gamboa! 

 

Além dos célebres festivais, estas duas praias me trazem outra singular recordação: o desconforto na sola dos pés, ao pousá-los no chão de suas águas. Na da Baía das Gatas, sente-se a áspera sensação dos corais que atapetam o fundo (ver foto ao lado e artigo aqui).

 

Na Gamboa, sentia-se o manto de Turritelas que magoava quem as pisasse. Nos bons velhos tempos, essas conchas unicórnias se amontoavam aos milhares na parte da praia da Gamboa mais próxima da então Cadeia Civil (onde agora se situa o Hotel Trópico). Eram tantas que acabaram por servir de material de revestimento decorativo na construção civil.

 

A Turritela, Caramuja em cabo-verdiano, é um gastrópode da família dos Turritellidae que tem a particularidade singular de se alimentar através de um processo de filtragem da água, coisa reservada aos moluscos bivalves e não aos gastrópodes. As turritelas já existiam no Miocénio e são muitas vezes encontradas em fósseis, permitindo alguma datação e informações paleontológicas. Foram encontradas turritelas fósseis em São Nicolau de Cabo Verde (ver aqui)

 

Como já me tinha referido em artigo anterior (ver aqui), as conchas de Cabo Verde têm sido um achado para os coleccionadores e entendidos. Vários estudos, catalogações e bate-papo têm tido lugar pelo mundo fora e nós aqui no país estamos a leste do paraíso. Vejam ao lado a capa de um interessante livro sobre a malacologia de Cabo Verde. Esta ciência, como também já o referira, foi um dos primeiros interesses científicos de Jean Piaget, que por sinal se comemora hoje o 113º aniversário de seu nascimento: 9 de Agosto de 1896. .

sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 20:21 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Domingo, 10.05.09

"Merinha" - uma vespa verde, neurocirurgiã e psicopata

Nestes últimos dias, tenho ido amiúdas vezes aos ensaios do Orfeão Sénior da Praia (ver antecedentes aqui). De vez em quando, ali se ouve uma voz aguda e esganiçada que me faz lembrar uma frase bem santiaguense: "Toma sima merinha na caxa fós !" .
 
 
Esta frase deriva da brincadeira infantil de: 1-prender o pobre insecto verde esmeralda (trata-se de uma vespa conhecida no Brasil por vespa-jóia ou em inglês por emerald jewell wasp) numa caixa de fósforos, 2-deixá-la entreaberta até que o bicho assoma a cabeça e, 3- entalar esta de imediato, fazendo com que o insecto emita um som metálico (de dor) fanhoso e sincopado.
 
Ora, como já o dissera, fui um coleccionador e observador de insectos. A foto que vos apresento é o de uma merinha (ampulex compressa) que passou mais de 40 anos espetada por um alfinete na cortiça que forrava o fundo da caixa onde coleccionava insectos. Lembro-me que nessa época, passava horas a observar esses verdes insectos que poisavam nas paredes de minha casa, sobretudo junto aos cantos onde havia baratas. Na realidade estas vespas são terríveis, e atacam as baratas. Injectam veneno no cérebro desses insectos para que fiquem zonzos e conduzem-nos (como cães amestrados) para seus ninhos. Colocam um ovo no interior da barata e mais tarde, a larva nascida vai comendo as entranhas da infeliz . Várias são as vespas que após se desenvolverem dentro de um hospedeiro o devoram. Essas relações são chamadas de parasitoidismo. [ver aqui] . Finda a fase larvar, a jovem adulta, sai triunfante da carcaça da barata. Vejam:
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Este comportamento estranho é descrito em vários artigos da blogosfera, como este elucidativo apanhado intitulado: O parasita solitário que conduz a sua presa: do blog Cais de Gaia.
"A pequena vespa iridiscente é um parasita durante a fase larvar que se especializou nesta espécie de baratas, e não ataca nenhumas outras. A Ampulex procura uma vítima e dá-lhe uma picada com o seu ferrão, injectando um cocktail de neurotoxinas que não mata a barata, apenas a paralisa ligeiramente."
Para melhor conhecermos os estudos sobre este comportamento, deixo-vos com um vídeo elucidativo:

 

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sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 09:14 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 14.09.08

Papilio Demodocus, ou o rei dos lepidópteros de Cabo Verde

Acabo de vir do interior da ilha de Santiago e apesar das inúmeras imagens de beleza verdejante que recolhi, uma me deixou triste: "o bananal de Santa Cruz ... desapareceu!" As bananeiras foram todas dizimadas e só sobrou o campo de limoeiros para alegrar a paisagem. Mas são precisamente estes limoeiros que me trazem hoje o tema de meu artigo: o papilio demodocus.

Como já vos tinha dito, muitas das horas de minha adolescência, passei-as a estudar e a coleccionar insectos. E a ordem mais atractiva aos olhos é sem dúvida a dos Lepidoptera ou das borboletas e traças. Mais um livro da colecção "Ver e Saber" da Verbo, me ajudou a apreciar estes coloridos insectos. Em Cabo Verde encontramos uma variedade razoável de lepidópteros, desde vistosas borboletas diurnas, cinzentas "bambalutas" nocturnas, traças e singelas pequenas borboletas.

Já adulto, trabalhei no então INIA (Instituto Nacional de Investigação Agrária) e naquele tempo a luta integrada contra as pragas agrícolas era levada a sério. E por mais lindas que sejam as nossas borboletas, muitas delas são as progenitoras de lagartas perigosíssimas para as culturas (desde tomateiros, couves, batata, etc). Assim, foi com desgosto que me apercebi que muitas das nossas culturas estão a morrer porque ... talvez os bons velhos tempos do INIA já eram! Mas os limoeiros de Santa Cruz pareciam saudáveis. Será que não estavam a ser atacadas por pragas? Talvez o insecto responsável está quase extinto! Que pena diria o coleccionador de borboletas em mim. É que a tal praga do limoeiro não é nada mais nada menos do que a lagarta que dá origem à borboleta mais vistosa de Cabo Verde, o nosso Papilo do Limoeiro: o papilio demodocus.

Aliás, era o principal insecto da minha colecção. A lagarta deste animal é estranha e tem dois falsos olhos (as manchas que aparecerão nas asas mais tarde). Uma vez, recolhi algumas destas belíssimas lagartas (gorduchinhas) e coloquei-as numa caixa envidraçada onde tive o cuidado de inserir várias folhas de limoeiro. Poucos dias depois começou o processo da metamorfose. As crisálidas já não eram tão bonitas mas deixaram escapar mais tarde as lindas borboletas que ansiosamente esperava. Encontrei na Internet uma montagem de fotografias que retrata esta evolução e apresento-a ao lado.

Embora raras, as borboletas cabo-verdianas têm sido algumas vezes homenageadas e a filatelia não fica atrás, como podem ver pelos envelopes do primeiro dia pertencentes à minha colecção:



Como se pode ver, o papilio demodocus está representado no 3º selo do 1º envelope.
publicado por jorsoubrito às 17:23 | link do post | comentar
Domingo, 31.08.08

Há 250 anos que o "Fonfon" tem nome científico

Como já é do vosso conhecimento pelo artigo (Kutum Ben Ben, dan papa pan dau leti...) que publiquei em Março 2008, desde cedo tive uma paixão pela entomologia, pelo que, além de estudar os insectos da terra, fazia colecção deles. Este gosto adveio da leitura (aos 11 anos) do livro "o Mundo dos Insectos" da colecção Ver e Saber da Verbo.

Um dos insectos que mais me apaixonava observar era o Fonfon, uma espécie de vespa de amarelo e preto que faz "casa-fonfon" de "papa-lama" pelos cantos dos quartos e debaixo dos móveis das nossas casas. Voltarei a este insecto daqui a pouco. Porque me lembrei então de falar dele? Eis a razão:

Estive hoje a arrumar as velharias que guardo e deparei com a caixa de insectos da minha colecção (a que apresento nesta figura de 1972) em deplorável condição: o tempo (36 anos) desfez a maior parte dos insectos. De imediato resolvi fotografar o que da caixa restava: vejam a figura anexa. Reparei então no insecto ao lado esquerdo da borboleta e lembrei-me do bicho e da data de sua classificação científica: Agosto de 1758 por Lineu. Trata-se do Sceliphron spirifex Linnaeus 1758. Vale a pena comemorar estes 250 anos e partilhar convosco a efeméride e os pormenores que se seguem:

A mulher-a-dias (sampadjuda do Fogo com a proverbial mania do "cau limpo e fréscu") que vinha limpar-nos a casa todos os Sábados, Lia Baptista de Sousa de seu nome, fartava-se de barafustar contra os fonfons que lhe tornavam a tarefa mais difícil, tal a sujeira deixada pelos ninhos de barro que aqui e ali implantavam. Olhava-me de soslaio quando lhe implorava para não destruir, pelo menos um desses ninhos, pois queria eu observar o evoluir da construção. De facto era algo maravilhoso seguir o trabalho destas vespas solitárias:


    .
  • Em seguida, o nosso fonfon carrega a bola de lama até ao sítio onde pretende construir o ninho e começa a trabalhar essa bola em anéis que irão formar células oblongas. Enquanto faz este trabalho emite um som típico: fon-fon-fon-foooon-fon, donde o nome onomatopaico que lhe deram aqui em Santiago. No Fogo "fonfon" é uma outra vespa e o nosso querido Sceliphron spirifex é em São Nicolau conhecido por "bananinha séca". NB: no Fogo o Sceliphron spirifex é conhecido por "custon fagássa".
  • Á medida que o fonfon termina uma célula, deposita dentro um ovo e vai à caça de aranhas saltitonas (os "cachorrinhos-lau-lau" por exemplo) e outras pequenas aranhas que caça sem piedade. Enche as células dessas aranhas vivas, mas por ele paralisadas (comida para o filhote) e tapa com lama.
  • Começa então a construção de uma nova célula. As células se empilham umas em cima das outras formando a tal casa fonfon que bem conhecemos. Como faz uma célula de cada vez, vai à caça e começa uma nova célula, muitas vezes não encontra a lama no mesmo sítio e a casa (ninho) tem várias cores (fazem-me lembrar algumas construções aqui do burgo).
  • Se quebrarmos uma destas casas, encontraremos células com as tais aranhas e com larvas de fonfon em diferentes estádios de metamorfose. É muito engraçado observar a reacção do fonfon quando regressa e encontra o ninho danificado: faz um ruído "fonfónico" estridente (como quem manda à pqp) e esvoaça desairado à procura do vândalo (é observar de longe, não vá a vespa ferrar o observador; mas o bicho não é agressivo). E depois se estranha que um insecto tenha... sentimentos!

Há uma outra espécie de fonfon em Cabo Verde que em vez de aranhas caça lagartas. Estes fonfons, são negros de antenas laranja e também fazem ninhos de barro. Esses ninhos são redondos (mais parecem igloos esquimós) e eles os dispõem uns ao lado dos outros.

Sem esquecer de mencionar os aspectos ecológicos das vespas, como os da luta integrada contra as pragas agrícolas, termino, remetendo-vos para uma página francesa com belas fotos do fonfon, que eles chamam de pélopée tourneur. Vejam mais fotos deste himenóptero: fonfon, vespa-oleira (em Portugal) ou também guêpe maçonne:
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publicado por jorsoubrito às 18:10 | link do post | comentar
Sábado, 19.04.08

Acácia Americana - a árvore entre a asma e um sublime mel de abelha

Prosopis Juliflora - como me posso esquecer deste nome?... se em pelo menos seis circunstâncias este nome foi esculpido na argamassa de meu encéfalo. Ei-las:
  1. Comecei a coleccionar folhas entre páginas de livros grossos e tenho um olfacto apurado.
  2. Participei nas primeiras plantações de árvores em Cabo Verde, após a independência.
  3. Doutorei-me no Arizona, adoro grelhados (barbecues) e aprecio mel de abelha.
  4. Tenho António Advino Sabino entre meus melhores amigos e o meu PhD é em Ciências do Solo e da Água.
  5. Escrevi 50% do Relatório de Cabo Verde à Conferência sobre o Ambiente e Desenvolvimento - Rio 92
  6. Via (e vejo) a praça Alexandre Albuquerque das janelas de minha casa, sofria de bronquite asmática em criança e tenho um filho alérgico a pólen.
Cada um destes pontos dá para escrever uma longa crónica. Tenham então a paciência de ler estas mais reduzidas crónicas que se seguem:
  1. Como já tive a ocasião de vos deixar saber, na minha puberdade e adolescência adorava conviver com a Natureza e fazia colecções de insectos (com um anexo de borboletas), rochas, conchas e folhas de plantas que prensava entre as páginas de velhos e grossos livros de contabilidade do meu avô materno, comerciante falecido em 1948. A Praia-Negra e a encosta debaixo do Hospital, eram meus lugares habituais de recolha das mais diversas amostras. A referida encosta era atapetada de Jatropha Curcas, o Pinhão Manso brasileiro que em Cabo Verde responde pelo nome de Purgueira; em poucos anos a acácia americana (a tal Prosopis Juliflora) substituiu a purgueira e acabei por tentar prensar as folhas e flores dessa acácia entre as tais páginas de contabilidade. Foi nesta tentativa de prensar as folhas da acácia, que o meu olfacto apurado discerniu um odor vagamente familiar que reportei porvir da seiva das folhas em questão. Poucos dias depois, um amigo mais velho transfigurou-se, passando de um cenho franzido (ao cheirar as folhas esfareladas que eu lhe estendia entre os dedos) a um rasgado sorriso, proferindo entre gargalhadas: "Queli... tâ tchera só cabxxxxx!" e cheirava mesmo a sémen humano fresco! Foi a primeira marca indelével da Prosopis na minha mente.
  2. Após a Independência de Cabo Verde, em 1975, o Governo defrontou-se logo com um problema candente: Energia! o Mundo sofria ainda dos efeitos do "crash" petrolífero de 1973 e o humilde camponês cabo-verdiano cozinhava cachupa com lenha (esta representava mais de 80% do combustível rural). A FAO aconselhou o Governo a desencadear uma vasta campanha de florestação tendo financiado conjuntamente com a cooperação belga, a introdução maciça da acácia americana. Esta não só era resistente à seca, como também, em menos de 3 anos, iria produzir bastante lenha e vagens para as cabras e demais alimárias. E sendo assim, lá estou eu a participar nestas campanhas de florestação com saquetas de Julifloras entre as mãos! (2ª punção cerebral).
  3. Ao chegar a Tucson para estudar na Universidade do Arizona, reparei que ali também havia nas ruas uma planta muito semelhante à nossa Prosopis Juliflora. Chamavam-na de Mesquite e diziam que dava um carvão formidável para os famosos barbecue. Mais tarde vim a saber, que o mel das abelhas que sugavam o néctar das flores dessa árvore, era considerado pelos entendidos, como um mel monofloral classificado entre os melhores do mundo. Quando usei o carvão de Mesquite (mais caro) e experimentei o não menos caro "Arizona mesquite honey", adoptei-os e assim a Prosopis Juliflora Velutina (a espécie do Arizona) foi a 3ª marca indelével da acácia nas minhas memórias.
  4. Tinha então a acácia americana em muito boa conta e podia-se até dizer que era um fã deste ser vivo extraordinário. Até que em Tucson conheci de perto António Advino Sabino, o engenheiro agrónomo responsável pelos fantásticos trabalhos de correcção torrencial, luta contra a erosão das encostas, enfim, o conhecido Director Geral da Conservação de Solos da jovem República de Cabo Verde. Uma grande amizade nasceu e um belo dia, conversa puxa conversa, lá estava eu a gabar as virtudes da Prosopis... quando Sabino me interrompe quase que vociferando: "Ó rapaz, tchá diss! Ês é maior praga quês btá na Cabo Verde!" ... e lá foi ele me elucidando que a referida acácia tinha sido banida internacionalmente (proibida mesmo) pelas suas características infestantes, que só no Arizona era permitida por causa do mel e do carvão ... e em Cabo Verde pela ignorância dos então governantes. Mais dizia ele que a planta suga a água a mais de 4 metros de profundidade (o lençol freático da ilha do Maio onde temos o maior perímetro de Julifloras, desceu de tal modo que os poços secaram) e que onde ela entra nada mais cresce! Antes que meu amigo se tornasse apoplético, apressei-me a concordar com ele, mas céptico e cauteloso como era (e sou), lá fui agendando incursões às bibliotecas para me elucidar (a Internet ainda não era para nós, pois estávamos em 1987). O que li e aprendi, conjugado com o que de solos percebia, me fizeram doravante alinhar ao lado de Sabino, na luta contra a continuação do uso indevido da acácia americana em Cabo Verde. Foi esta a 4ª marca!
  5. Regressado ao INIDA em 1990 com meu PhD acabado, fui chamado a chefiar o Departamento de Recursos Naturais desse Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário. Em 1991 Sabino tornou-se Presidente do INIDA e juntos fomos a algumas conferências sobre o Ambiente. Eram oportunidades para desancar sobre a Juliflora e uma vez, numa entrevista à RCV no Mindelo, contrariei a campanha do Presidente da Câmara em prol da plantação da Prosopis,... alegando que, "a questão não é como alguns andam aí a propalar." Só que a boca resvalou para "...andam aí a papaguear!" Entretanto, Sabino orgulhava-se de ter introduzido no país uma espécie muito melhor, a Acacia holosericea (de origem australiana) que, também resistente à seca, não era nem infestante, nem esterilizava os solos. Quanto a mim, fui convidado a integrar uma equipa de quatro consultores para escrever o relatório de Cabo Verde à Conferência do Rio e aproveitei para nos 25% que me couberam, escrever 50% do relatório e dizer entre outras coisas, o que competia sobre o uso da Prosopis Juliflora em Cabo Verde. Porém, salientei que pelo facto de Cabo Verde possuir uma abelha europeia dócil (uma Apis Mellifera diferente da feroz abelha africana) e reputada por fabricar um bom mel, devia-se apostar na apicultura e aproveitar melhor as acácias. Este relatório impôs-me a quinta marca!
  6. Com esta recente marca avivada na cabeça, tudo era pretexto para maldizer a acácia americana. E para cúmulo, a paisagem que vislumbrava através das janelas da minha casa era por demais elucidativa do poder aniquilador da famigerada Prosopis. Vejam o estado calamitoso dos canteiros da Praça Alexandre Albuquerque, cuja foto da época (1991) vos apresento ao lado. Nesse ano nasceu meu filho Mauro, que pouco tempo depois acusava violentos sintomas de falta de ar, rapidamente diagnosticados como provocados por alergia a pólen de acácias. Por ter sido asmático em criança, sabia avaliar o sofrimento do petiz. Assim, creio ser esta, entre todas, a pior referência à Prosopis !
Obrigado pela vossa paciência em ler estas linhas. Que aconselharia para as políticas concernentes a esta acácia?

Obrigado e até ao próximo Domingo.
publicado por jorsoubrito às 22:46 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Sábado, 08.03.08

Kutum Ben Ben, dan papa pan dau leti...

Kutum Ben Ben, não se trata do filho do filho da árabe Kuttum, a minha quadragésima avó (e de Amélia também) filha do profeta Maomé!
Trata-se pois deste horrendo, grotesco e implacável bicharoco que nas ilhas setentrionais cabo-verdianas também responde por "Contchinha Dóna Dóna". Notem, meus caros, a sonoridade destes nomes, bem como a da lengalenga infantil "dam papa pan dau leti"(como defendo o bilinguismo, traduzo: "dá-me papa para que te dê leite") usada pelas nossas crianças quando tentam fazer sair o energúmeno bicho de dentro do funil de areia que constrói para: apanhar, maltratar, paralisar e devorar formigas que distraidamente ali tombarem. Esta sonoridade tem o ritmo onomatopaico (virtudes da língua cabo-verdiana) dos movimentos violentos e sincopados do animal ao bombardear as vítimas com areia, bem como da sua forma de locomoção em marcha-a-trás.

Pois é, este indivíduo é uma larva de um insecto da ordem dos Neurópteros que por ser uma autêntica fera para as formigas fez com que o adulto tivesse o nome científico de Myrmeleon, ou seja o de formiga-leão.

Vejam agora um vídeo profissional da National Geographic onde se pode observar o Kutum Ben Ben em acção:


Como poderão constatar no pequeno vídeo a seguir, o animal adora andar de marcha-a-trás quando retirado da toca:
Este comportamento é aproveitado (colocando a larva sobre as zonas erogéneas) pelas crianças com idades próximas da puberdade, para fazerem aparecer mais rapidamente os pelos púbicos, ou para verem crescer os seios em pouco tempo. Claro que isto não passa de um mito, embora alguns supostamente eruditos "bolam" a explicação de uma massagem dos vasos capilares pelas cócegas provocadas pelo insecto, fazendo com que haja mais sangue a trazer hormonas e nutrientes para essas zonas.

Agora, devem vocês estar a perguntar, porque será que eu estou a falar deste animal num blog de assuntos "não científicos e mais ligados à biografia do autor". É que sempre tive paixão por insectos (podem discernir uma pequena colecção de insectos numa caixa que ostento na foto ao lado) e um belo dia deparei com o nome de formiga-leão debaixo de uma foto do Kutum Ben Ben. Porém a legenda dizia ser uma larva, e fiquei curioso por saber qual dos insectos da minha colecção seria progenitor deste popular animalzinho.

Peguei então de uma caixa de cartão forte com tampa, adaptei um vidro na tampa para que se pudesse ver o interior da caixa e enchi a mesma até 2/3 com terra arenosa. Cacei bastantes Kutuns e pu-los sobre a terra da caixa. Trataram logo de se enfiar nessa terra e no dia seguinte lá estavam os célebres funis de caça. Alimentei-os com formigas e passado muito tempo (já estava quase a desistir) tive o prazer de ver esvoaçar na caixa, dois belíssimos exemplares de formiga-leão adultos! NB: tive sorte, pois a vida de uma larva antes da metamorfose (vim a saber depois) , é de cerca de dois anos.

Os adultos são uns bichinhos encantadores que só voam à noite e se alimentam de seiva e de néctar de flores! Quem diria? São conhecidos por "paga-candeia", pois, ao esvoaçarem à volta de lamparinas e "podogós" acabam por os apagar.

Eis então em rodapé, fotos deste magnífico Neuróptero:
publicado por jorsoubrito às 23:16 | link do post | comentar | ver comentários (4)

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