Domingo, 09.08.09

A Electra levou-me de Gatas à Gamboa

Mas que fim-de-semana! Sob o signo do 25º Festival da Baía das Gatas (ver aqui) vários acontecimentos marcantes tiveram lugar, sendo o que mais me entristeceu, o do falecimento de Raúl Solnado. Aquando do seu 79º aniversário, tive o prazer de lhe dedicar um artigo, que poderão rever aqui. Após ter ouvido a notícia na RTP-África, mudei de canal para ver em directo o que se passava na Baía das Gatas.

  

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Coloquei a janelinha televisiva no canto superior esquerdo do monitor do PC e comecei a engendrar o artigo que iria escrever neste blog. Apetecia-me falar de Mimetismo e até publiquei no meu recente fotolog, uma fotografia que tirara de um Louva-a-Deus entre as folhas de um feto. Mal se vê o animal (assim como mal se vêem estes, duma coleccão da National Geographic).

 

De repente, a Electra (famigerada companhia cabo-verdiana de águas e electricidade) resolve cortar a corrente eléctrica do meu bairro, ficando eu às escuras com o rato na mão e metade do meu artigo em águas de bacalhau. Às apalpadelas fui-me deitar.

 

Mas quem disse que ia poder dormir? Nem eu nem ninguém em casa o pôde fazer. Os mosquitos invadiram nossos quartos e eu fui a principal vítima. Sem electricidade os ventiladores não podiam dissipar o dióxido de carbono nem evaporar o nosso suor. Assim, o dióxido de carbono por nós exalado e o suor não evaporado, foram os principais atractores dos hediondos insectos. Na realidade os mosquitos são atraídos pelo CO2 que expiramos e pelo ácido lácteo de nosso suor (sendo eu o mais volumoso, produzo mais destas substâncias e sou a 1ª escolha desses dípteros). Passei a noite, com uma lanterna na mão esquerda, a dar-lhes palmadas esborrachantes (contra a parede) com a direita, ao mesmo tempo que praguejava e exigia nosso sangue de volta.

 

E pensar que durante a minha puberdade já fui criador de larvas de mosquito! Tinha vários bocais onde as criava. Até gostava delas. Maluco eu? Não, fazia isso por várias razões, entre as quais a científica. Porém, a principal razão era como alimento vivo para os meus peixinhos de aquário, sobretudo para os Guppys, extraordinários animais ovovivíparos cujos machos eram um regalo para nossos olhos, tais eram as variegadas cores ostentadas pelas barbatanas e caudas. As fêmeas dos guppys são desprovidas de graça, pois acinzentadas e gordinhas passam despercebidas. Porém, são utilizadas no combate aos mosquitos em águas estagnadas de riachos, lagoas e gamboas (atenção a este nome, já volto a ele). Convido-vos a assistir este clip onde se pode ver fêmeas de guppy a caçar larvas de mosquito:

..

E nós na Praia até temos uma gamboazita em frente da central eléctrica (Electra e Mosquitos, os agressores do dia). Segundo os entendidos: "Esta designação, totalmente popular, é o nome dado a um braço de rio de mangue, que não tem nascente e está sempre sob influência da maré. Tanto que na maré baixa uma gamboa pode ficar completamente seca." (tirado daqui). E esta gamboa (ao lado do bar Motcha) deu o nome à praia de mar onde se insere, que se tornou igualmente famosa pelos seu Festival da Gamboa! Não pude então deixar de associar a Baía das Gatas à Gamboa. Comecei a noite com a música (carnavalesca) das Gatas e terminei com o carnaval dos mosquitos da Gamboa! 

 

Além dos célebres festivais, estas duas praias me trazem outra singular recordação: o desconforto na sola dos pés, ao pousá-los no chão de suas águas. Na da Baía das Gatas, sente-se a áspera sensação dos corais que atapetam o fundo (ver foto ao lado e artigo aqui).

 

Na Gamboa, sentia-se o manto de Turritelas que magoava quem as pisasse. Nos bons velhos tempos, essas conchas unicórnias se amontoavam aos milhares na parte da praia da Gamboa mais próxima da então Cadeia Civil (onde agora se situa o Hotel Trópico). Eram tantas que acabaram por servir de material de revestimento decorativo na construção civil.

 

A Turritela, Caramuja em cabo-verdiano, é um gastrópode da família dos Turritellidae que tem a particularidade singular de se alimentar através de um processo de filtragem da água, coisa reservada aos moluscos bivalves e não aos gastrópodes. As turritelas já existiam no Miocénio e são muitas vezes encontradas em fósseis, permitindo alguma datação e informações paleontológicas. Foram encontradas turritelas fósseis em São Nicolau de Cabo Verde (ver aqui)

 

Como já me tinha referido em artigo anterior (ver aqui), as conchas de Cabo Verde têm sido um achado para os coleccionadores e entendidos. Vários estudos, catalogações e bate-papo têm tido lugar pelo mundo fora e nós aqui no país estamos a leste do paraíso. Vejam ao lado a capa de um interessante livro sobre a malacologia de Cabo Verde. Esta ciência, como também já o referira, foi um dos primeiros interesses científicos de Jean Piaget, que por sinal se comemora hoje o 113º aniversário de seu nascimento: 9 de Agosto de 1896. .

sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 20:21 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Domingo, 26.10.08

Quão aprasível me foi, encontrar a prima da Aplysia dactylomela

A Aplysia dactylomela é um estranho animal marinho que se pode encontrar em quase todo o Atlântico e no Mediterrâneo. Mas o que é digno de realce é que Rang, Sander (1793-1844), o cientista que descreveu esta espécie há precisamente 180 anos, fe-lo sobre um exemplar colhido aqui em Santiago de Cabo Verde em 1828. Assim o nome completo do bicho é Aplysia dactylomela Rang, 1828.

Durante a minha infância, deleitava-me na Praínha (a pequena praia de mar da cidade, frequentada nessa altura pela classe média) a procurar o animal nas "bacias" de água entre as pedras e a provocá-lo com algum objecto pontiagudo para ve-lo soltar aquela cortina de "fumo" roxa e ofuscante. "Meu pai disse que ele se chama rato do mar" elucidara-me um colega de escola que ao meu lado participara da aventura. "Cal rato!.. hi!hi!hi!" troçava um garoto da Achada Santo António ... "quela tchuma: catota'l mar". Excusado será dizer que doravante a curiosidade se tornara maior e gargalhadas comprometidas passaram a acompanhar-nos nas aventuras subsequentes de busca da "ca... " ou melhor, do "rato do mar".

A minha curiosidade científica me fez mais tarde encontrar algumas referencias do animal (não tínhamos Internet) como sendo um molusco gastrópode, hermafrodita e herbívoro, mais conhecido em Portugal por "vinagreira" ou "lebre do mar". Cheguei a ver este molusco ao fazer (já adolescente) mergulhos com óculos e barbatanas. Podem apreciar aqui, um clip do YouTube onde se pode perceber porque lhe chamam de rato ou de lebre do mar, vê-lo a comer "alfaces do mar" e a expelir a tinta púrpura.

Durante muitos anos me intrigou o nome vernáculo que davam na ilha de Santiago, ao Aplysia. Não via parecença nenhuma com o órgão genital feminino. Até que há poucos dias estava com a família na Praia-Baixo e qual não foi meu espanto ao ver um animal da cor da pele de uma mulata, nadar ao meu lado com a beleza que poderão conferir no clip de vídeo seguinte:

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Fascinado, cheguei a casa e fui pesquisar na Internet, tendo encontrado que se tratava da prima do nosso "rato do mar": a "vinagreira negra" ou Aplysia fasciata, Poiret 1789, também existente em Cabo Verde e que certamente foi ela que inspirou o tal nome vernáculo "anatómico":



publicado por jorsoubrito às 20:51 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 20.01.08

Os cones que podem nos levar a "conos"

Esbocei um sorriso ao ler no Liberal Online a seguinte notícia:

"As 50 variedades cabo-verdianas, dispersas pelas ilhas, classificam-se em duas variedades morfológicas – os conos pequenos, que terão chegado ao litoral do arquipélago há 16 milhões de anos, e os grandes, há 5 milhões"
Não pelo conteúdo da notícia mas pela palavra "conos". Naturalmente que foi uma gralha ortográfica do articulista que queria dizer cones e não "conos". Estes cones tratam-se de animais gastrópodes (moluscos com conchas) pertencentes à família dos conidae.

As ilhas da Boavista, Sal e Maio são riquíssimas em cones de rara beleza. Cabo Verde detém 10% das variedades existentes no mundo e algumas são raridades muito procuradas por coleccionadores, chegando a ser vendidas por preços impensáveis.

Como já sabem, uma das minhas paixões é, à semelhança de Jean Piaget, a malacologia [Se também gostam de Malacologia podem visitar o site Malakos]. Conheci em criança um coleccionador de conchas português, que vivia na Boavista. Só em 1983 é que tive o privilégio de visitar a colecção desse indivíduo. Além de pentes tinha bastantes porcelanas e maioritariamente cones. Nesse tempo já ele me dizia que muitas destas espécies não se encontravam mais nos mares da Boavista e lamentava não ter condições para manter a sua colecção.

Hoje, sei da pilhagem que se faz das nossas águas e por isso não quis falar muito deste assunto para não despertar mais curiosidade e apetência para o massacre dos conidae cabo-verdianos. Por isso sorri do facto de se evocar que temos 10% dos "conos" do planeta!

Desisti hoje, dia dos heróis nacionais, de bancar o herói ecológico para abertamente mostrar ao mundo, quão maravilhoso é o património conquífero das nossas águas e apelar a quem de direito que o valorize sem deixar que nos pilhem destas espécies raras.

Valorizar poderia passar pela organização de colecções que seriam expostas em museus do mar, onde pudessem ser contempladas pelos turistas e pelos estudantes de Cabo Verde. A Madeira fez isto e recolhe dividendos. A nossa colecção seria de longe mais valiosa: dêem uma olhada (clique no link) no artigo a respeito que vai publicado no blog "Espaço Cabo Verde". Reparem quantos belíssimos exemplares da colecção apresentada no link seguinte: aqui , são de Cabo Verde.

Se quiserem ver a linda colecção de conchas, que um colega da Universidade do Porto possui, cliquem aqui. Este Professor, de nome Franclim F. Ferreira, possui muitos gostos e paixões, como poderão constatar na sua página. Congratulo-me por ter muitas afinidades e gostos semelhantes ao deste colega (numismática, filatelia, bandeiras, viagens, etc)
publicado por jorsoubrito às 22:12 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Domingo, 17.06.07

Caldeirada de Lulas à moda antiga

A lula é um cefalópede (tem os pés na cabeça) bastante apreciado em Cabo Verde, embora outro cefalópode, o Polvo, seja mais popular.

Podemos encontrar inúmeras receitas deste molusco pela Internet fora, mas eu não resisto em vos apresentar este divino prato que minha avó fazia baseado numa receita de seu ensebado "Tratado completo de cozinha e copa" uma publicação dos anos vinte do século passado. Vamos então à receita:

Preparam-se as lulas, dando-lhes um golpe com uma tesoura no saco ou manto, tirando-lhes a cartilagem em forma de pena e separando-lhes as cabeças com os tentáculos, que se aproveitam assim como os mantos. Lava-se tudo muito bem para fazer desaparecer umas películas coradas que cobrem o manto, de modo que os bocados fiquem todos "brancos". Tempere as lulas com sal (molho de soja é melhor) e vinho branco.

Faz-se um refogado com azeite do bom, cebola, salsa picada e pimenta. Quando a cebola aloirar, deitam-se-lhe os bocados das lulas e passam-se no refogado, acrescenta-se este com tomate e deixa-se ferver até que as lulas estejam bem macias e o molho bem apurado.

Serve-se em prato aberto, decorado com folhas soltas de salsa. Um vinho verde é de se esperar, mas hoje preferi um simples Mateus Rosé!
publicado por jorsoubrito às 16:04 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Domingo, 10.06.07

A Malacologia e a "malucologia" pelas lulas

"Odjo sima lula trás di cutelo" assim apetecia agora dirigir-me a um fulano (filho meu) que de olhos esbugalhados se encontra ao meu lado a observar-me desferir um golpe de tesoura de cozinha a uma pobre lula (já morta claro!) e a retirar-lhe de seguida a fina cartilagem quase transparente e em forma de pena.

É que, estou a preparar estes cefalópedes para confeccionar no próximo Domingo um prato de lulas à moda antiga, tal como o fizera nesse dia em que me filmavam para o Intimidades tendo dito isso em público, no referido programa

Porém, antes de vos presentear com a receita (no próximo Domingo), eis que tenho a ocasião de falar de Malacologia, o ramo da biologia que estuda os moluscos. A parte mais vistosa deste ramo do saber é o estudo dos gastrópodes e dos bivalves, pois têm espécies com conchas belíssimas de grande interesse para coleccionadores. O nome de Malacologista é também aplicado aos coleccionadores de conchas. Encontramos lindas colecções em museus como o do Aquário Vasco da Gama em Lisboa. A Malacologia foi paixão de muito boa gente, como Jean Piaget que na sua adolescência, se interessou bastante por moluscos:

"Seu interesse por moluscos aparece durante a adolescência quando publicou diversos artigos sobre moluscos, fósseis e zoologia, temas presentes nos estudos que desenvolveu durante toda a sua vida . Tal era sua paixão por este estudo que, naquela ocasião, decidiu que seria um Malacologista."
Deixo aqui um endereço de um site do Instituto Português de Malacologia, onde poderão baixar números de uma revista científica especializada na matéria.

Convido-vos na próxima semana a comerem comigo uma caldeirada de lulas à moda antiga.
publicado por jorsoubrito às 11:06 | link do post | comentar

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