Domingo, 06.07.08

Ressurreições (Cristo e República de Cabo Verde) após 33 anos do nascimento?


Coincidência ou não, é após 33 anos como país independente, que a jovem República de Cabo Verde está a iniciar, qual Cristo, a sua Ressurreição [em latim (resurrectione), grego (a·ná·sta·sis). Significa literalmente "levantar; erguer"]: Parceria especial com a União Europeia, Graduação a País de Desenvolvimento Médio, entrada na Organização Mundial do Comércio (efectiva no dia 23 de Julho) e um Processo Eleitoral para as autárquicas, sem mácula, com baixa taxa de abstenções e resultados inequívocos.

Porém, 33 anos me deixam pensar que estou a ficar velho, pois nesse tempo, já era eu um jovem com o ensino secundário feito. Lembro-me perfeitamente desse dia, o 5 de Julho de 1975, bem como da cerimónia da proclamação da Independência que se desenrolou no Campo de Futebol da Várzea (hoje Estádio).


Um dia soalheiro (ver também a crónica de Jorge Eurico, colunista do Notícias Lusófonas, aqui), lá estávamos nós, sentados ou de pé nas bancadas de cimento, à espera do início das cerimónias. Estas, começaram com o já proverbial atraso cabo-verdiano. O campo foi se enchendo de tropa e as orlas, de jornalistas e câmara-men. Na tribuna viam-se aqueles "qui bâi qui torna ben", os combatentes da Pátria (vejam a foto anexa a este parágrafo) Pedro Pires (seria o Primeiro-Ministro) Abílio Duarte (o Presidente da Assembleia Popular) e Aristides Pereira (o Presidente da República). Ao lado estava o então Primeiro-Ministro português, General Vasco Gonçalves.

Não havia vento. Chegou o momento da troca das bandeiras. Sob o hino português, lá desceu tranquilamente a bandeira das quinas. Poucos minutos depois o jovem militar Roberto Fernandes, enfiava os cordões na bandeira de Cabo Verde (aquela que nos foi dada a conhecer na véspera e que era quase a bandeira da Guiné-Bissau; a diferença residia em duas espigas de milho que, à guisa dos bigodes de Eça, amparavam a estrela negra e conferiam assim à bandeira, a sua identidade própria). Talvez por nervosismo, a tarefa não parecia fácil e após alguns minutos, lá conseguiu ele, o feito. Começa então, ao som do hino comum ao da Guiné-Bissau, a erguer-se lentamente a 1ª bandeira de Cabo Verde. Nisto, se levanta uma boa ventania e muitos exclamavam as mais disparatadas razões para a tal coincidência atmosférica.

Lá fui eu tirando fotos (as desta página por exemplo) dos momentos que achava relevantes e escutava com atenção os inflamados discursos dos dirigentes, guias que detinham a força e a luz do nosso Povo. Estes discursos e estas comemorações tornaram-se prática a cada aniversário da independência que se sucedeu nos cinco anos subsequentes. São também ocasiões para fazer lançamentos de selos e moedas comemorativas. Eu, como coleccionador que era, não pude deixar de adquirir tão preciosas peças:

Selos
Envelope do Primeiro Dia de Circulação para o
Primeiro aniversário da Independência de Cabo Verde
A imagem no selo merece que se oiça a música que se segue:


| Oiça o "Labanta braço" dos Tubarões |

Envelope do Primeiro Dia de Circulação para o
Quinto aniversário da Independência de Cabo Verde


Em filatelia o envelope e o carimbo do Primeiro Dia de Circulação, conhecido pela sigla inglesa FDC, reveste-se de particular importância para o coleccionador. Vejam aqui um dos artigos interessantes a esse respeito.

À semelhança dos FDC, em numismática são lançadas moedas comemorativas. Estas, geralmente em ouro ou em prata, são cunhadas em quantidades diminutas. As poucas que eventualmente venham a circular, são imediatamente recolhidas pelos coleccionadores amadores, fazendo assim aumentar o seu valor de venda numismática. Os coleccionadores mais entendidos, compram-nas à flor de cunho, directamente ao Banco emissor. Eis então a que adquiri nessa altura:

Moeda
Moeda em prata, comemorativa do
Primeiro aniversário da Independência Nacional



publicado por jorsoubrito às 15:16 | link do post | comentar
Domingo, 16.03.08

Histórica moeda entre o desprezo e o menosprezo

Esta é a primeira moeda que levou o cunho de Cabo Verde. Foi posta a circular em 1930 (Decreto nº18495 de 24.I.1930) e a sua tiragem foi de um milhão de exemplares.

Já se aperceberam, meus caros leitores, que vou finalmente falar de Numismática. O que vos parece obscuro é talvez o enigmático título. Porém, lá chegaremos, mas não sem antes conhecermos melhor a história desta moeda e de como me deparei numismata.

Rapidamente podem encontrar na Wikipédia, uma conseguida explicação do vocábulo e de seu significado. Eis o primeiro parágrafo da referida explicação:
"Numismática (do grego clássico νόμισμα - nomisma, através do latim numisma, moeda) é a ciência auxiliar da história que tem por objetivo o estudo das moedas e das medalhas."
Na casa onde cresci (e onde moro: localizem-na no pano de fundo do cabeçalho deste blog) há um vasto alçapão onde na época minha avó mantinha baús e velharias do século XIX, quiçá, XVIII. Curiosidade infantil, aliada à minha nativa tendência para a investigação, levava-me a fazer incursões exploratórias ao alçapão, em busca de não sei que tesouro escondido. Acreditem, encontrava coisas fabulosas e um belo dia desencantei umas antigas moedas do tempo da monarquia (vinténs, patacos, "derés" e outras) entre as quais se destacava um D. Luís de prata! Este foi o rastilho e a energia de activação da minha entrada para o grupo dos numismatas! (to be continued...)

Agora vejamos um pouco da história da primeira cunhagem de moedas próprias de Cabo Verde, com o nome da então colónia devidamente evidenciado. É com a devida vénia ao Eng.º de Sistemas Fernando Rodrigo C. Romão e Alves da Silva que transcrevo o seguinte texto de um site seu:

As moedas de Portugal e as que se obtinham com o comércio externo compuseram desde a origem a numerário desta Província.

LOPES FERNANDES, na sua Memoria das Moedas Correntes em Portugal, descreve o que se passava na sua época, já no século XIX. "As moedas do reino são correntes nesta província, 1 peça de 8000 réis ou 8 Patacas e 1/3, os Cruzados novos de prata, na venda por 500 réis, e na compra por 480 réis, sendo elles e as peças raríssimas; e também correm as fracções de prata. O cobre e o bronze, as mesmas que em Portugal. São admitidas todas as moedas estrangeiras, com o valor de mercado, como qualquer outra mercadoria; mas nas transacções com os estrangeiros a moeda nominal é a Pataca com o valor de 800 réis fortes; e na Ilha da Boa-Vista existe a mesma moeda nominal, e mesmo nas transacções internas, nas quaes é a Pataca reputada por 800 réis fracos - Foi esta informação dada para o Governo pelo Governador Geral de Cabo Verde em 16 de Fevereiro de 1846.

O Decreto de 19 de Outubro de 1853, mandou que todas as moedas portuguezas fossem alli correntes, sendo igualmente admittidas todas as estrangeiras, que o foram em Portugal pelos Decretos de 1846 e 1847".

ÁLVARO LERENO, in Subsidios para a História da Moeda em Cabo Verde (1460-1940), fala das vicissitudes suportadas neste território por esses anos fora sem moeda própria e, geralmente, com escassez da que lhe vinha da Metrópole, de Angola e dos estrangeiros com quem negociava.

É com o Decreto nº18495 de 24.I.1930, que aparece a primeira moeda metálica desta Província Ultramarina.

Vejam agora a belíssima série numismata de 1930:
1 Escudo

1930
AlpacaAmoedação

50,000
50 centavos

1930
AlpacaAmoedação

1,000,000
20 centavos

1930
BronzeAmoedação

1,500,000
10 centavos

1930
BronzeAmoedação

1,500,000
5 centavos

1930
BronzeAmoedação

1,000,000

É pois esta última moeda que hoje vos apresento:
O MEIO TOSTÃO
A moeda com que não se conseguia comprar quase nada, sobretudo durante a II Grande Guerra e anos subsequentes (a inflação galopante desvalorizou a moeda). O meio-tostão tornou-se "cascalho". Devido a isto, a sabedoria popular tratou logo de engendrar duas frases paradigmáticas:

A de desprezo:
"Ca bali nen mei tiston frado"
Um indivíduo ou um objecto desprezível "não valeria nem um meio-tostão, e menos ainda se esta moeda estivesse furada!"
NB: não é que eu furei uma destas moedas para tê-la no bolso e poder gozar com os colegas que se metiam comigo, dizendo-lhes que a moeda era mais valiosa do que eles!!
A de menosprezo:
"Mei tiston ca ten troco !"
A uma provocação não se deva responder (dar o troco) sobretudo se vier de alguém que desconsideramos. De facto não havia troco para a moeda de menor valor facial, a de 5 centavos, o nosso meio tostão.

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