Domingo, 07.11.10

Agressividade - o traço animalesco de Guerra e Paz

Aos Domingos de manhã, dedico-me um pouco mais ao jardim e aos nossos animais de estimação. Após cuidar dos caniches, sentei-me a descansar e a olhar para os pássaros. De repente o habitual "coquetel de chilreios" transformou-se numa estridente algazarra sonora. Tirei imediatamente do bolso o telemóvel-câmara e filmei a cena:
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Porque estariam estes animais, que se davam tão bem, a brigar? São fêmeas da mesma espécie, a Melopsittacus undulatus ou periquito australiano. Ciúmes?

Nasceu a 7 de Novembro de 1903
Bem, lá me vi eu de novo a cogitar sobre o comportamento de animais. Esta "mania", vim aprender muito mais tarde, que se enquadrava numa ciência chamada Etologia, a qual teve por expoente máximo, Konrad Lorenz. Eis o que dele se diz num site educativo:

"Tinha um mini-zoológico em casa, com várias espécies de peixe, aves, macacos, cães, gatos e coelhos, muitos dos quais ele capturava em suas excursões pelo campo. Ainda muito jovem, ocupava-se de nutrir e tratar os animais doentes no zoológico de Schonbrunner, nas proximidades de sua casa. Também anotava metódica e detalhadamente em um diário o comportamento de suas aves. A observação dos hábitos dos animais e a comparação do instinto de agressão animal com o comportamento humano foi uma grande preocupação dos cientistas e um momentoso tema dos pensadores no período entre as duas grandes guerras, em busca de explicações para a agressividade humana."

Efectivamente, Konrad fez bastantes estudos sobre a agressividade animal, com vista à comparação com o comportamento humano. Vejamos mais um extracto do citado site:

"Em 1973 Lorenz recebeu o prémio Nobel de Medicina e Fisiologia, dividido com outros dois estudiosos do comportamento animal, Karl von Frisch e Nikolaas Tinbergen. Seu trabalho sobre as raízes da agressividade alcançou grande repercussão devido à possibilidade de aplicação ao conhecimento da violência urbana e, em maior escala, à prevenção das guerra. Jean Piaget tomou-o, juntamente com os resultados de sua própria pesquisa, como base para sua inovadora psicobiologia. Recebeu também diplomas honorários das Universidades de Yale, Loyola. Leeds, Basel, e Oxford, além de vários outros prémios e honrarias.
O ponto crucial da visão de Lorenz a respeito da natureza humana é que, assim como muitos outros animais, o homem tem o impulso inato do comportamento agressivo em relação a sua própria espécie."

Morreu a 7 de Novembro de 1910
Guerra e Paz, as eternas faces da mesma moeda. Muito gira à volta desta "moeda", muito se escreveu e se pode escrever sobre este assunto. Leão Tolstoi gastou rios de tinta para escrever uma obra com este nome:

"É uma das obras mais volumosas da história da literatura universal. O livro narra a história da Rússia à época de Napoleão Bonaparte (nomeadamente as guerras napoleónicas na Rússia). A riqueza e realismo de seus detalhes assim como suas numerosas descrições psicológicas fazem com que seja considerado um dos maiores livros da História da Literatura."

Como liguei sempre mais às ciências ditas exactas que à história, não cheguei a ler Guerra e Paz. Nos primeiros anos da Independência, o "livro grosso" que mais estava na moda era "o Capital" de Karl Marx. Muitos dos jovens "revolucionários" de então, andavam em lugares públicos com este calhamaço debaixo dos braços, para ganhar status de intelectuais. Conhecendo a "escrita pesada" desta obra e conhecendo o nível de discernimento de alguns destes ditos-cujos, o conteúdo do livro só poderia transitar por osmose para os seus detentores, na razão inversa da catinga do sovaco.

Nasceu a 7 de Novembro de 1879
"Peta", um destes jovens, era no entanto pessoa inteligente e andava muito envolvido em movimentações políticas. Muitas vezes um pouco agressivo, viu-se um belo dia perseguido por agentes do poder e, creio eu, uma bala foi disparada. Um médico psiquiatra e político activo, amigo do nosso herói, foi o primeiro a vir em socorro do mesmo. Houve muito alarido nessa altura, vindo à tona a questão dos Trotskistas do PAIGC. Foram momentos tensos, tendo havido sessões de "crítica e autocrítica", onde muitos "Trotskistas" mostraram-se arrependidos (alguns de lágrimas nos olhos) e outros tiveram de sair do Governo e do país ( vejam a entrevista de Jorge Carlos Fonseca aqui). Muita agressividade pairava no ar. Bem gostaria eu de ver Konrad Lorenz a fazer a crítica destes seguidores de Trotsky e dos seus perseguidores !

A propósito de "Peta", conta-se que nos tempos do liceu (antes do 25 de Abril) era ele muito romântico e que uma vez, platonicamente, enamorou-se de uma linda jovem cuja alcunha era "Pi". Claro que nós os jovens alunos liceais, logo aproveitamos para fazer trocadilhos e aconselhamos ao mesmo que passasse a frequentar os laboratórios de química do liceu, pois ali encontraria muitas pipetas (PI-PETA) entre os vidros laboratoriais!

Nasceu a 7 de Novembro de 1867

Isto não só me traz recordações das experiências de química que fazíamos sobre as tampos azeviche das ardósias das bancadas desses laboratórios, como também dos heróis e heroínas da Física e da Química. A nossa professora de Físico-Química fazia questão de valorizar o papel da francesa Marie Curie nestas áreas, realçando o facto dela ser mulher. Mais tarde vim a saber, que na realidade a cientista era polaca e que nascera Maria Sklodowska. Foi a primeira mulher que recebeu o prémio Nobel duas vezes. Sua filha também veio a ser galardoada com este prestigioso prémio. Deixo-vos com um vídeo sobre os prémios Nobel dos Curie:

 


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Domingo, 03.10.10

Cândido dos Reis, o Romeu da República Portuguêsa

Estamos no Outono, estação dos climas temperados e sem significado para o sistema climático cabo-verdiano. No entanto, quando criança (em plena era colonial) estudávamos as quatro estações do ano, como se fosse essa a nossa realidade. As folhas caídas e amareladas das árvores, eram para nós, fruto da imaginação. As únicas "coisas amarelas" de que me lembro caírem das árvores, eram umas vagens secas de uma espécie arbórea existente na Rua Cândido dos Reis e com as quais a criançada se deleitava a fazer "ventoinhas" cruzando duas dessas vagens sobre a extremidade de um pau de carriço e fixando-as com um pequeno prego, tendo filtros de cigarros como anilhas amortecedoras.

A Rua Cândido dos Reis da cidade da Praia traz-me sempre boas recordações de infância. As citadas árvores, quando floridas, emanavam um aroma tão suave e perfumado, que me faziam, então, insistir com meus pais a passar sistematicamente por esta rua, quando passeávamos de carro pela cidade. Nessa ocasião o passeio era curto pois poucas ruas tinha a Praia. Minha mãe, de quem herdei a mania dos purismos e das precisões, esclarecia sempre que passávamos pela rua paralela à Cândido dos Reis, a "Rua d' Horta", que esta não se chamava assim, mas sim Miguel Bombarda! e acrescentava logo que a Cândido dos Reis era também "Almirante Reis" e não Cândido dos Reis.

Estas duas ruas gémeas (não idênticas porém) vão ambas desembocar na rua da "Igreja Protestante", a dos Nazarenos, naquela ocasião denominada Rua 5 de Outubro, da qual descia também a Rua da República. Parece que a toponímia de então, insistia  no ideal republicano. Os ilustres homenageados, foram os principais promotores do movimento que se iniciava há 100 anos, a 3 de Outubro de 1910 e que conduzia à proclamação da República Portuguesa a 5 de Outubro de 1910.

Irónicamente, estes dois amigos e companheiros, não assistiram à citada proclamação por que tanto lutaram. O Dr. Bombarda, médico, foi assassinado a 3 de Outubro desse ano, por um doente mental do Hospital de Rilhafoles e Cândido dos Reis, ao saber disso e das notícias de denúncia do golpe, pensou estar tudo perdido e matou-se (a 4 de Outubro). Triste história deste herói de origem cabo-verdiana, que me faz lembrar o final de Romeu e Julieta onde Romeu se mata pensando que Julieta estivesse morta.
A origem cabo-verdiana de Carlos Cândido dos Reis, é descrita pelo conhecido genealogista cabo-verdiano, João Manuel Oliveira, nestes termos:

"A mãe é que era da Brava. Carlos Cândido dos Reis, (sob reservas ), filho de Matilde de Azevedo, mais conhecido por Almirante Reis por causa da avenida lisboeta que leva o seu nome. Embora todos saibam o seu nome poucos sabem quem foi, facto que o escritor Luís de Stau Monteiro põe na boca de um personagem do romance Angústia Para o Jantar, (p. 18): “Quem teria sido o Almirante Reis? Que teria ele descoberto? A pólvora? Se calhar descobriu a pólvora e não disse nada a ninguém”. Nasc. a 16 de Janeiro de 1852, nat. de Lisboa, (segundo outros teria nascido em Cabo Verde, sendo baptizado em Lisboa)."

Ambos foram enterrados no mesmo dia e tiveram um funeral conjunto. Quer um quer outro, eram declarados anticlericais. De notar que ser anticlerical, não significa que se seja agnóstico ou ateu:

"O anticlericalismo propugna pela separação e não interferência entre as esferas do poder religioso e do civil. O activista anticlerical critica a acção política das instituições religiosas."  [tirado daqui]

A propósito de liberdade religiosa e separação da Igreja do Estado, acontece que neste momento, encontro-me em Provo, nos Estados Unidos, a participar no 17º Simpósio Internacional sobre Lei e Religião, a convite da Brigham Young University, universidade ligada à Igreja de Jesus Cristo dos Santos dos Últimos Dias (os Mormons).
Hoje, Domingo, participei na Conferência Anual da citada igreja, evento grandioso realizado em Salt Lake City num auditório de 21 mil lugares e acompanhado pelo celebérrimo Coro do Tabernáculo Mórmon.

Deixo-vos com um vídeo deste coro:


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Domingo, 26.09.10

Tim-tim por tim-tim, saibamos como aqui chega o Sol

Desde que passámos a ter criação de aves tropicais decorativas, não tenho descartado as oportunidades de me sentar no nosso jardim interior a contemplar os voos saltitantes desses seres alados e a ouvir os trinados e pios dos mesmos, numa autêntica terapia ornitológica. Muito melhor que qualquer ansiolítico para dissipar o stress, stress que é a causa de muitos dos ataques cardíacos e AVCs de que se ouve falar.

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Justamente neste dia 26 de Setembro, dedicado à problemática das doenças cardiovasculares e em que se comemora o "Dia Mundial do Coração", resolvi ficar mais tempo a contemplar os pássaros e a tomar um pouco de sol. Às tantas, surge-me o meu filho Mauro a interpelar-me sobre esta prática, para ele absurda:

- "Não tens outra coisa para fazer? Pareces um velho!"
- "Antes pelo contrário! Estou a cultivar a minha juventude! Nada como o relaxe para se manter forte e saudável e sem problemas cardíacos" - ripostei eu com um sorriso de antecipação prevendo a tirada seguinte do adolescente:
- "Juventude?! com essa idade?! ... mas... com que idade se deixa de ser jovem?"
- " Até aos 77 anos ! atirei eu, pensando na célebre frase da revista Tintim: "a revista dos jovens dos 7 aos 77 anos""
- "Estás a gozar comigo!" lamenta ele.

Então expliquei-lhe de onde tirara a ideia e pedi que aguardasse um pouco. Fui ao baú das preciosidades de minha infância e passados alguns minutos, lá estava eu a fazer a "entrega oficial" da colecção da revista Tintim (em versão portuguesa) ao meu adolescente rapaz. NB: "entrega oficial" pois ele já conhecia esta colecção que eu frisava sempre ser minha e não dele. Agora passa a ser dele e o acto foi fotografado pela irmã. O simbolismo do gesto tem seu valor, pois hoje é o aniversário do lançamento da versão original belga. Esta deu à estampa em 26 de Setembro de 1946, num dia em que se comemora a revolução belga de 1830 que conduziu esse país à independência.

E lá vem o Sol de novo, vejam a capa do Tintim belga: "Le temple du Soleil". É caso para dizer: "Here comes the Sun" como o dissera George Harrison, um dos Beatles, numa música de sua autoria e do mesmo nome, surgida pela 1ª vez no álbum Abbey Road. Este álbum, tornou-se célebre por ser o último álbum a ser gravado pela banda. Também foi em Abbey Road que George Harrison se firmou como um compositor de primeira linha. Após anos a viver à sombra de John Lennon e McCartney, finalmente empunhou dois grandes sucessos com este álbum: "Here Comes the Sun" e "Something". Ambas foram regravadas várias vezes ao longo dos anos. Abbey Road foi lançado em 26 de Setembro de 1969, mas o tributo que faço neste dia de sol, é a Harrison. Vejamo-lo a interpretar, alguns anos após os Beatles se terem desmanchado, a música que lhe deu ... "um lugar ao sol":

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Domingo, 19.09.10

Elucidativos envelopes do 1º dia, PAIGC e burros "anotados"

Já ninguém liga ao 19 de Setembro aqui em Cabo Verde! Esta data é histórica para a existência do nosso país como Estado independente: é a do aniversário da criação do PAIGC por Amílcar Cabral e por outros cinco camaradas:
  • Amilcar Cabral
  • Aristides Pereira
  • Luís Cabral
  • Fernando Fortes
  • Júlio Almeida
  • Elisée Turpin
Antes do golpe de Estado na Guiné-Bissau, que resultou na cisão do partido e no  fim da célebre, mas pouco convincente, "Unidade Guiné-Cabo Verde", a data era comemorada com pompa e circunstância. Já no 2º ano de nossa independência calhou o XX aniversário da fundação do PAIGC e mais um selo comemorativo foi lançado, com o seu respectivo "envelope do 1º dia". É com prazer que vos apresento aqui o lindo selo com a esfígie de Amílcar Cabral entre a Guiné e Cabo Verde:

Mas a primeira vez que se comemorou esta data em Cabo Verde, foi em 1974, depois do "25 de Abril" mas antes da Independência, ou seja, em plena agitação política onde as forças da UPICV (União dos Povos das Ilhas de Cabo Verde) se degladeavam contra o PAIGC, causando a este sérias preocupações passíveis de um ardente desejo de neutralizar a UPICV pela parte do PAIGC. Os leitores poderão melhor entender a palavra "neutralizar" lendo o texto de José Luís Hopffer Almada no Blog Tertúlia Crioula (ver aqui), do qual isolo este extracto:
"A neutralização, que se queria definitiva e irreversível, dos responsáveis e apoiantes da UPICV materializa-se de forma cabal, nesses dias iniciais do mês de Dezembro de 1974..."
Confesso que os militantes da UPICV eram então, deveras impertinentes. Tinham a seu serviço a "Minerva de Cabo Verde", uma tipografia familiar e com bastante notariedade em Cabo Verde (ver histórico aqui e de seu fundador) e quase que quotidianamente lançavam um panfeleto muitas vezes demolidor das afirmações e ideias veiculadas em comícios pelos políticos e militantes do PAIGC. Tinham a vantagem da imprensa, cujo produto gráfico de alta qualidade,  contrastava com os panfletos policopiados do PAIGC. Vejamos então um destes produtos gráficos que a UPICV lançou, no dia 19 de Setembro de 1974, para achincalhar o PAIGC e troçar de três de seus juristas, cuja eloquência e argumentação irritava os manda-chuvas da UPICV:

A simbologia inserida neste trabalho gráfico, poderá ser melhor entendida pela análise do seguinte extracto do texto de José Luís H. Almada atrás referido:
"...a UPICV proclamava-se como sendo de ideologia maoísta e pró-chinesa, e, por isso, posicionava-se como contrária ao “imperialismo americano”, considerado como aliado natural do colonialismo português e dos seus “fantoches spinolistas autóctones”, e ao “social-imperialismo soviético”, de cujo expansionismo e hegemonismo o PAIGC era considerado mero instrumento e peão políticos."

De qualquer modo, acho que devo homenagear o génio da tipografia que foi Aires Armando Leitão da Graça, irmão do lider histórico da UPICV, José Leitão da Graça. Aires, era o guru das artes gráficas dessa época, tendo gerido a Minerva como nunca alguém o fizera antes. Aires foi um dos 6 presos políticos que a "neutralização" conseguiu pôr atrás das grades do Tarrafal e fazer Portugal assinar um acordo reconhecendo o PAIGC como a única força política representativa do povo cabo-verdiano!
Embora tendo lhe sido reconhecido o estatuto de Combatente da Liberdade da Pátria, Aires morreu na miséria e bastante doente. Gostava imenso de fumar cachimbo e a melhor prenda que se podia levar-lhe durante a fase da doença, era um pacote de tabaco para cachimbo.
Porém, sou um acérrimo lutador contra o tabagismo, e termino esta crónica com mais um elucidativo envelope do 1º dia, desta feita, sobre a "luta contra o tabagismo", lançado há 30 anos atrás, em 19 de Setembro de 1980:

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Domingo, 22.08.10

O caso do lacrau da Vitrola

Ontem, após algumas horas a seguir os programas do TV5 Monde (devido à chuva não houve "Baía das Gatas" nessa noite), lembrei-me que no dia seguinte era Domingo, dia de escrever para o Blog. Sem inspiração nenhuma (há semanas que não a tenho) fui à janela de minha sala, olhar para a praça Alexandre Albuquerque, naquela hora deserta (já passava da meia-noite). Para contrastar com a noite anterior, a praça, de imperceptível iluminação eléctrica, resplandecia de matizes prateadas propiciadas por um intenso luar, de lua cheia ainda meio escondida por escassas nuvens de chuva. Ainda com a TV5 ligada, me veio à mente uma cantiga infantil gaulesa:
Au clair de la lune, mon ami Pierrot Prête-moi ta plume, pour écrire un mot.
Mais precisava do "mot" que da "plume"! Olhei para o coreto vazio e imaginei-o mais tarde com a banda municipal a tocar suas animadas e sonoras peças, à base de clarinetes, tubas, trombones, cornetas e trompetes, muito "sopradas" para o meu gosto.

Quem teria mandado construir o coreto e dinamizado este já bem antigo hábito, da banda municipal aos Domingos? Lembrei-me logo do nome de Abílio Monteiro de Macedo, um dos melhores presidentes de câmara que a Praia já teve. Fui vasculhar nos meus registos e encontrei esta descrição que transcrevo:

"Foi membro do Conselho do Governo em 1917; presidente da Câmara Municipal do Fogo (1922) e presidente da Câmara Municipal da Praia (1923-28), tendo dado um grande avanço aos trabalhos municipais desde obras no mercado ao melhoramento da luz eléctrica, da banda de música ao calcetamento das ruas."
Abílio de Macedo foi um homem multifacetado: político, maçon, autarca, comerciante, proprietário, armador, director de jornal, etc. Mas, das minhas recordações, me lembro que foi um grande amigo da nossa família. Era padrinho de minha mãe e reinava uma profunda e real amizade entre ele e meu avô Antoninho, seu compadre. Após a "...exoneração do cargo de presidente da câmara, concedida em 25 de Maio de 1928 e a renúncia do mandato de vogal do Conselho do Governo, concedida em 26 de Maio de 1928" Abílio Macedo dedicou-se mais, à actividade comercial. Como armador, conhecia bem as leis marítimas e chegou a arrematar em hasta pública, todo o conteúdo de um navio americano que encalhara nos mares da Boavista. Nesta carga, constavam duas ou três vitrolas, que Abílio não vendeu, tendo oferecido uma ao meu avô Antoninho para que este melhor decorasse a sala da sua recém adquirida (1930) casa (esta onde moramos).

E é desta vitrola que vos quero falar hoje, máquina lançada pela Victor Talking Machine Company no mercado americano, em 22 de Agosto de 1906 (fazem hoje 104 anos). Em criança ouvia os mais velhos chamar ao mono, de gramofone (só recentemente vim a saber que estavam enganados pois gramofone eram os de corneta externa, sem caixa de ressonância). Eu adorava esquivar-me para a sala de visitas (geralmente fechada) para ir colocar os discos de 78 rotações no "gramofone" e fazer passos de dança ao som de fox-trots e valsas. Minha mãe brigava, pois tinha medo que me ferisse com as agulhas de aço enferrujadas. "Podes apanhar tétano", dizia ela ao mesmo tempo que me fazia sair da sala. Algum tempo depois começou o período de vacinas e lá ia eu insistindo para tomar a do tétano. Assim foi feito, na Cruz Vermelha da cidade (era onde naquele tempo se ministravam vacinas) e fiquei por isso mui grato à instituição (que completa hoje 146 anos), pois já podia tocar o "gramofone" a meu bel prazer e a contragosto de minha mãe. Mas, um belo dia, ao abrir a tampa da vitrola, salta-me de lá dentro um lacrau (pequeno escorpião cá das ilhas, creio, já extinto) ! Corri esbaforido para a sala de jantar, onde meus pais iam iniciar o almoço, gritando de medo. Após verificação do ocorrido e de que o aracnídeo não me picara, meu pai de sorriso maroto me tranquilizou enquanto minha mãe sentenciava: "bem feito! assim deixas o gramofone em paz!"... e deixei mesmo (até regressar da faculdade, quinze anos mais tarde). Apresento-vos então "O GRAMOFONE":


Com o "clair de lune" girando no meu cérebro, procurei se porventura esta ária de Debussy se encontrava entre os inúmeros discos de 78 rotações que eram guardados em compartimento próprio da vitrola. Não encontrei. Pena! ... os violinistas do Festival da Baía das Gatas bem ma poderiam tocar, nesta noite de luar em que se celebra o 148º aniversário do nascimento deste grande compositor francês. Não faz mal! Encontrei uma excelente interpretação do "Clair de Lune" tocada por um violinista. Ofereço-vo-la em guisa de despedida:

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Domingo, 14.02.10

Morre James Bond, nasce o ALUPEP

Não estranharia nada se o dia 14 de Fevereiro fosse consagrado como o "Dia do Camaleão" ou o "Dia do macaco de imitação"! Irão, caros leitores, perceber as razões da minha tirada à medida que eu for desenvolvendo este artigo.
 
A 14 de Fevereiro de 1989 morria o homem que se vê na fotografia em cima, a segurar dois maçaricos-esquimós (Numenius borealis). Este cientista, foi um ornitólogo amante de pássaros tropicais, que escreveu: A Field Guide to the Birds of the West Indies, publicado pela primeira vez em 1936. Ilustre desconhecido! Porém, seu nome foi "roubado" por Ian Fleming (confissão aqui) que dele deu vida ao mais famoso espião de todos os tempos: James Bond.
 
 
Ao que parece, por mais fidedigna que seja a cópia, sempre esta acaba por adquirir a sua própria identidade, e como tal se diferencia do original. Mesmo na clonagem isto acaba por acontecer. Veja-se o caso da célebre ovelha Dolly que se tornou famosa e poucos sabem da ovelha original. Dolly era suposta viver mais seis anos do que ela... porém, teve de ser abatida aos 6 anos (a 14 de Fevereiro de 2003) por sofrer de doença típica das ovelhas velhas (suas células tinham um DNA de 12 anos). Vejam o vídeo a seguir:
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Precisamente um ano antes, (a 14 de Fevereiro de 2002) nascia o primeiro animal de estimação clonado: a gata c/c, carbon copy ou Copy Cat. Tratou-se do nono animal clonado na história da clonagem.

 

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Mas, esta imitação que de forma darwiniana se transforma progressivamente em algo individualizado e com possibilidade de reprodução sob nova identidade, não se limita a seres materiais.

 

Vejamos um caso "não material" que teve lugar em 14 de Fevereiro de 842: o dos Juramentos de Estrasburgo (Sacramenta Argentariae):

"Os Juramentos de Estrasburgo (Sacramenta Argentariae) marcam o nascimento da língua francesa. É nestes juramentos de ajuda mútua pronunciados em 14 de fevereiro de 842 entre dois netos de Carlos Magno, a saber, Carlos o Calvo (Charles le Chauve) e Luís o Germânico (Louis le Germanique), contra o irmão deles, Lotário I, que se encontra a primeira testemunho da existência de uma língua falada na França que era claramente separada do latim, a língua romana antepassada do francês" [tirado daqui]

 

 

Mas a língua portuguesa teve também um momento de glória a 14 de Fevereiro de 1990: o da aprovação do Projeto de Ortografia Unificada da Língua Portuguesa

 

No entanto, hoje 14 de Fevereiro de 2010, é Domingo gordo de Carnaval! Vou propor um novo traje para a escrita da língua portuguesa:

 

o ALUPEP!

ALFABETO UNIFICADO PARA A ESCRITA DO PORTUGUÊS

 

Isto, porque a argumentação dos arautos do alfabeto fonológico para a língua cabo-verdiana, era a de que os cabo-verdianos eram incapazes (um autêntico atestado de incompetência e de mediocridade) de escrever bem a língua portuguesa por não saberem quando o x se lia che, cse, zz, ssi ou eix, ou quando s valia c ou z. Como o problema não foi resolvido por se aceitar o bilinguismo, e o ALUPEC foi imposto, só me resta propor que a língua portuguesa passe a ser escrita com um alfabeto fonológico: o ALUPEP.
 
A partir dexte mumentu já komesei a uzar u alfabetu funulójicu. Vai ser um marku istóriku nexta sidade da Praia. Oje é dia du Sãu Valentin y todux ux namuradux extão à prokura de prezentex para oferta. Bem guxtaria de vê-lux maxkarádux, kon beisux silikunadux a tentar akêlex beijux de "txintxiróti". 14 de Fevereiru é também um dia de muitux asasinatux y masakrex, bem komo de medidax de intolerânsia kontra a liberdade de expresãu.
 
Kreiu ke vou fikar por aki, poix nãu guxtaria de ter um mandadu de kaptura extilu fatwa, emitidu pur sei lá ke dirijente pouku demukrátiku ke por aí abunda, tal a sorte de Salman Rushdie kon seux Versíkulox Satânicux. Foi a 14 de Fevereiru de 1989 (nu mexmu dia em ke Bond faleseu!) ke lhe foi lansada a tal ordem de ezekusãu!
 

Antex purém de vux deixar, guxtaria de vux prezentear kon uma belísima futugrafia dux anux trinta, onde se podem ver kriansas vextidax de karnaval a rigôr, em frente da kâmara munisipal da sidade da Praia:
 

Adeux, ke já me bateram à porta kon akele mandadu de apreensãu du meu komputador!

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Domingo, 20.09.09

A deusa italiana Sophia Loren fez 75 anos e aguarda os da francesa Brigitte Bardot

Na minha adolescência, as mais famosas "sex simbols" do cinema eram indubitavelmente Sophia Loren e Brigitte Bardot. E o engraçado é que elas tinham a mesma idade: Loren é apenas 8 dias mais velha que Bardot e faz hoje 75 anos.Porém, ainda guarda seu charme, vivacidade e frescura, o que não se pode dizer de Bardot! O que é certo é que elas ficarão na história do cinema e nos devaneios de muitos homens. Vou agora escolher uma montagem do YouTube que presta um tributo às duas estrelas em paralelo:
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Domingo, 13.09.09

Brito - Cabrito, a jocosa associação de ideias

Durante a minha infância escolar, não conseguia evitar que coleguinhas fizessem trocadilhos com o meu nome de família (Brito). Uns chamavam-me de cabrito, outros justapunham o apelido ao nome do caprino, repetindo, qual refrão de compositor pouco inspirado: brito-cabrito!, brito-cabrito!, brito-cabrito! ...
 
A princípio, até ripostava dizendo-lhes que, lembrando-me a partícula de negação da língua cabo-verdiana, se contradiziam, pois sendo eu Brito não poderia ser ao mesmo tempo não-Brito (ca Brito).
 
O que é certo é que adorava brincar com cabritos e ao que parece o gosto pelo animal tornou-se hereditário, como podem ver nas fotos seguintes:
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»»»»»»Eu, aos três anos »»»»»»»Mélanie (minha filha) aos três anos«««««« .
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Domingo, 30.08.09

Do vazio de Rutherford à chuva copiosa de Bronson

Quando comecei a dar aulas de Química no ensino superior (ver o artigo: Os meus queridos alunos - I), era para mim um grande desafio fazer passar a noção da estrutura atómica. Era um assunto que me apaixonava, pois meu sonho de adolescência era vir a ser um físico nuclear como Einstein. Ao me formar em Química, a questão da estrutura atómica era como uma ponte entre esta ciência e a física nuclear. Talvez por isso, no percurso da história da estrutura atómica, que ia de Demócrito a Schrödinger, era para mim o ponto mais emocionante, o da demonstração de que "o átomo era vazio". Esta conclusão foi conseguida por Rutherford, (um cientista nascido precisamente há 138 anos, na Nova Zelândia, em 30 de Agosto de 1871, que, embora físico, ganhou em 1908 o prémio Nobel da Química), que interpretou a experiência levada a cabo pelos seus discípulos Geiger e Marsden; vejam:
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Rutherford chegou a essa conclusão [na vida universitária, é mesmo assim: os discípulos fazem o grosso do trabalho e o mestre "tira o coelho da cartola"] e para demonstrar quão vazio era o átomo do hidrogénio, comparou-o a um campo de futebol, onde o minúsculo electrão circulava ao longo das "4 linhas" e o grosso da massa do átomo se encontrava condensado numa bola no centro do campo. Eis ao lado o "Estádio" da Várzea em 1981 como imagem para a comparação.

 

A ênfase que eu punha na explicação dos raciocínios de Rutherford, valeram-me da parte de meus alunos a sugestão de dar esse nome ao meu então recém-nascido primogénito (Outubro de 1983). Claro que não fui no bote, e coloquei o nome de Marcos Miguel ao pimpolho. Alguns, mais meus amigos, até insistiram, mas disse-lhes que tirassem o cavalinho da chuva.

 

E nesta época chuvosa, estar à chuva me faz lembrar um filme que me marcou pelo seu suspense e brutidão: "O passageiro da chuva", estreado há 40 anos e contracenando Charles Bronson e Marlène Jobert. O actor era mesmo feio e assustador, mas revelou-se um dos melhores actores para este tipo de papéis. Vejamos então um extracto:

..
 
Hoje, dia internacional dos desaparecidos, fazem seis anos que desapareceu da face da Terra, este grande actor, que foi Charles Bronson !
E agora desapareço eu! (do blog, claro!) .
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Sábado, 15.08.09

Bossa Nova, Sex symbol, Elvis e Caymmi

O Verão bate em pleno! Bem me apetecia refrescar-me em praias tropicais, ao sabor das ondas (do mar e das beldades). Ainda bem que em Cabo Verde temos praias dessas que fazem inveja a Ipanema e a suas garotas! Uma caipirinha ao som da célebre "Garota de Ipanema" não cairia nada mal! Saibam que esta mundialmente famosa canção de Bossa Nova, foi composta no ano de 1962 (ano da estreia do filme Dr. No - a foto ao lado foi extraída deste clássico de James Bond) e que a 19 de Março de 1963 (dia do 27º aniversário da garota da foto ao lado) sai a gravação para a gravadora Verve. Claro que esta garota não é de Ipanema! Trata-se de Úrsula Andress, uma das sex symbol dos anos sessenta. Nesse tempo comecei a ir ao cinema em frente da minha casa (ocupava um dos lugares captivos de que meu pai dispunha no cine-teatro municipal, por conta da assistência técnica que prestava ao cine) e deleitava-me com os filmes de James Bond e outros de cariz recreativo, alegre ou musical. Esta actriz tinha seu nome na boca de todos os púberes da época, que em 1968, já a tinham visto em "Casino Royale - 007", "What's New Pussycat?" e "Fun in Acapulco". Eis um pouco deste último, onde contracena com o grande Elvis Presley:
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Mas, que atrevimento esse o de Presley, em martelar nas palavras Bossa Nova, num show de Rock que de Bossa Nova só levava o título: "Bossa Nova Baby"? Que diria Tom Jobim, um dos pais desse ritmo e um dos criadores da Garota de Ipanema? Antônio Carlos Brasileiro de Almeida Jobim , mais conhecido como Tom Jobim, é considerado um dos maiores expoentes da música brasileira. Amigo de um outro grande expoente da música brasileira, Dorival Caymmi, ("um compositor e poeta popular que se inspirava nos hábitos, costumes e tradições do povo baiano e que tendo como forte influência a música negra, desenvolveu um estilo pessoal de compor e cantar, demonstrando espontaneidade nos versos, sensualidade e riqueza melódica" - tirado daqui) ei-lo no vídeo a seguir, em casa de Caymmi, interpretando com ele e com a ajuda das respectivas famílias, o não menos célebre "Eu vou para Maracangalha" da autoria de Dorival:
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Que bonito ver neste vídeo, o velho dorival Caymmi rodeado da família e dos amigos ! O homem (embora aqui, quase octogenário) transborda juventude e alegria. Será que poderemos dizer o mesmo da "garota não de Ipanema" que está na fotografia introdutória deste artigo? Vejam-na na foto ao lado, agora com 73 anos.
 
Este artigo, fi-lo em homenagem a Elvis Presley e a Dorival Caymmi, pois hoje, 16 de Agosto, é o aniversário do desaparecimento físico de ambos: Elvis em 1977 com 42 anos e Dorival em 2008, com 94 anos.
 
Como o Bossa Nova e a Garota de Ipanema foram o elo entre Elvis e Dorival, através de Andress e Jobim, eis que vos proporciono um derradeiro clip, de Tom Jobim há 20 anos atrás (1989) a tocar Ipanema em estilo Jazz:
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sinto-me:
publicado por jorsoubrito às 22:31 | link do post | comentar

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