Domingo, 08.02.09

Que há de comum entre: Hilário Brito, John Baird, Jules Verne e Dmitri Mendeleev ?

Desde já a resposta: o 8 de Fevereiro e a "Tele-visão"
(além da testa e do olhar confiante no futuro)
Recentemente conectei ao meu desktop, uma "penTV". Cedo me apercebi que a antena da "pen" era pouco sensível e lá fui adquirir uma dessas antenas interiores numa das lojas chinesas da capital.
Porém, era preciso fazer uma ginástica tremenda de orientação da mesma para poder captar algo credível. Lembrei-me logo do significado da frase "captar TV" que há 42 anos ouvia troar nos meus ouvidos de recem-teenager, a propósito das tentativas de meu pai em teimar poder ver televisão na Praia.
Como estas ideias lhe tinham surgido em Fevereiro de 1967, resolvi então dedicar o meu próximo "post" dominical (este) ao espírito pioneiro de Hilário Brito, em querer estar entre os primeiros a captar TV em Cabo Verde (no Sal já um português se vangloriava te ter captado TV).
Segundo os apontamentos (encontrados na página "8 de Fevereiro") de uma velha agenda do meu progenitor, que religiosamente guardei (ele nem se deu conta do confisco), a ideia lhe surgiu no início de Fevereiro de 1967, quando comprara um minúsculo televisor Crown e uma antena de vários elementos. Ainda me lembro dos valentes rapazes dos CTT e da Central Eléctrica que içavam o poste enorme de ferro onde se via a tal antena no topo e, sob o comando de Hilário, ajustavam os fios de aço que seguravam e mantinham o poste hirto e imune à força dos ventos.
Durante os meses que se seguiram, lá ia Hilário escrutinando os ares para ver se "via" alguma coisa, ora virando a antena para a esquerda ora para a direita. A 30 de Julho, como reza o artigo anexo (clique nele), conseguimos vislumbrar uns "fantasmas" que iam e vinham acompanhados de algum som espanholado. Não me esqueço de uns quatro minutos de "debujos animados" dos Flinstones que me deleitaram e ditaram a paciência e a ansiedade de ficar especado à frente do minúsculo écran por largos minutos a olhar para a "chuva" acinzentada que propiciava. Poderão inteirar-se de outras aventuras e incursões no mundo da televisão que Hilário Brito prosseguiu, ao ler (façam clique na imagem) a crónica anexa. Podem também ver a entrevista que lhe fizeram aquando da gala comemorativa 20 dos anos da televisão estatal cabo-verdiana: Quanto a mim, fui investigar na Internet um pouco sobre as origens das primeiras emissões de TV e qual não foi o meu espanto, quando deparei com a informação de que a primeira emissão de televisão entre Londres e Nova York se realizara num 8 de Fevereiro (em 1928) fazendo hoje precisamente 81 anos de tal histórico evento. Mais interessante ainda é ler a biografia de seu autor, um escocês de nome John Logie BAIRD, e constatar seu espírito visionário e empreendedor. Eis um resumo tirado da wikipédia:
John Logie Baird (13 de Agosto de 1888, Helensburgh – 14 de Junho de 1946, Bexhill) foi um engenheiro escocês, um dos pioneiros da televisão. Em fevereiro de 1924 transmitiu imagens estáticas através de um sistema mecânico de televisão analógica. Em 30 de outubro de 1925 transmitiu as primeiras imagens em movimento. Em 1927 fundou a Baird Television Development Company, a qual em 1928 fez a primeira transmissão transatlantica de televisão, entre Londres e Nova York e também o primeiro programa de televisão para a BBC. Em 1931 realizou a primeira transmissão ao vivo.

Este homem de visão, que transportou a "visão" de um continente a outro, me lembrou um outro: Jules Verne, aquele que foi: .
"considerado por críticos literários como o precursor do género de ficção científica, tendo feito predições em seus livros sobre o aparecimento de novos avanços científicos, como os submarinos, máquinas voadoras e viagem à Lua"
Fui então descobrir que ele nascera a 8 de Fevereiro de 1828, exactamente 100 anos antes da citada emissão de televisão entre Londres e Nova York !
(faça um clique nesta imagem e aceda ao site de origem)
Em matéria de previsões, muito cedo, nas minhas lides com a Química, tropecei num outro grande vulto da ciência: Dmitri Ivanovich Mendeleev
"em russo Дми́трий Ива́нович Менделе́ев, (Tobolsk, 8 de Fevereiro de 1834 — São Petersburgo, 2 de Fevereiro de 1907) foi um químico russo, criador da primeira versão da tabela periódica dos elementos químicos, prevendo as propriedades de elementos que ainda não tinham sido descobertos. "
Mais uma coincidência, este novo "barbudo" nasceu a 8 de Fevereiro, exactamente há 175 anos, e seis anos depois do anterior "barbudo", o Verne ! Está provado: a comum data de 8 de Fevereiro e o facto destes quatro homens serem homens de visão que a transportaram no tempo e no espaço (tele) prevendo e propiciando tempos melhores nos círculos onde viveram!
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Domingo, 16.11.08

Tolerância, Comunismo e Eu

Neste Dia Internacional da Tolerância, deparamos com efemérides de diversos eventos, momentos e pessoas, ligados ao comunismo. Eis alguns exemplos (desta fonte):

 

  • 1917 - Uma vez vitoriosa em Petrogrado, a revolução russa estende-se rapidamente a todo o país.
  • 1918 - O Império Austro-Húngaro é oficialmente dissolvido e é proclamada a República Democrática Húngara.
  • 1920 - Fim da guerra civil russa: as forças do general Wrangel são derrotadas pelo Exército Vermelho liderado por Leon Trotski.
  • 1922 - Nasce José Saramago, escritor português, prêmio Nobel de Literatura.
  • 1933 - Os Estados Unidos reconhecem oficialmente a URSS.
  • 1965 - A espaçonave Vênus III, lançada pela União Soviética, atinge seu destino, tornando-se a primeira a aterrissar em outro planeta.
  • 1992 - O Partido Democrata Trabalhista, formado por ex-comunistas, vence as eleições na Rússia na primeira disputa depois do fim da União Soviética.
  • 1997 - Morre George Marchais, Secretário Geral do Partido Comunista francês.
Em face disto tudo, não posso deixar de comentar quatro pontos que para mim foram e são marcantes. As condições que impus a este blog não me permitem fazer comentários jornalísticos que não estejam de alguma maneira ligados a aspectos da minha vivência (biográficos). Por isso, isolarei o seguinte:
  1. Tolerância - a primeira vez que me coube reflectir sobre o significado deste vocábulo, foi durante o módulo de Etnologia ministrado no curso do círculo de estudos ultramarinos, já por mim evocado em outro artigo. Esse módulo foi magistralmente conduzido por um sociólogo português de nome Celso João Albuquerque e marcou-me pelo carácter desmistificador sobre ideias preconcebidas a respeito de outros povos e culturas (veja-se o que nos fora dado a conhecer por exemplo sobre as teorias do Prof. Hans Mukarovsky). Contudo, só muito mais tarde, em França, ouvi um colega insurgir-se sobre a palavra tolerância. Dizia ele que quem se diz tolerante, coloca-se em posição de superioridade em relação ao "tolerado"; argumenta ele inquirindo se o tolerante admitiria que um filho seu dissesse: "Papá, eu te tolero quando achas que não devo usar calças de ganga ...". Remata meu amigo que tolerância devia ser substituída por respeito.
  2. Hungria - Em Junho de 1999, tive o privilégio de participar na Conferência mundial sobre Ciência e Tecnologia que se desenrolou em Budapeste. Doravante a cidade de Budapeste, o Danúbio, a Hungria, sua história e sua gastronomia, ficaram indelevelmente marcados na minha memória. De facto, comer um Gulasch ao som de violinos ciganos e a conversar com o então ministro da Ciência e Tecnologia de Portugal, Prof. Mariano Gago, é um momento deveras inolvidável.
  3. Saramago - Não me posso esquecer da 1ª cerimónia de atribuição do grau de Doutor Honoris Causa que assisti. Foi ao insigne escritor, outrora militante do PC e prémio Nobel, José Saramago. A Universidade em questão foi a de Évora. Guardo com carinho um de seus livros, "Evangelho segundo Jesus Cristo", que gentilmente consentiu autografar. A vida e obra deste vulto da literatura lusófona é algo paradigmático e merece ser considerada. Vejamos no entanto parte de uma entrevista consentida à Globo:
  1. Georges Marchais - Para quem viveu em França de 1975 a 1981, é incontornável não esbarrar com esta inpressionante figura que foi o Secretário Geral do Partido Comunista Francês. Nessa altura as minhas convicções pendiam francamente para a esquerda e era um fervoroso adepto deste carismático estadista. Não perdia nenhuma emissão das "Cartes sur Table" de Jean-Pierre Elkabbach e Alain Duhamel, onde Marchais fosse convidado. Eram proverbiais as suas saídas intempestivas e ficou célebre a frase, à guisa da do rei de Espanha,"Taisez-vous, Elkabbach !" que lhe é atribuída. Não há registo porém dessa frase, sendo isto o que mais se lhe assemelha:
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Ao que parece, o humorista francês Tierry le Luron, nas suas impagáveis imitações de Marchais, ter-lhe-á "colado" a frase. Vejamos uma das imitações de Tierry:
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Domingo, 14.09.08

Papilio Demodocus, ou o rei dos lepidópteros de Cabo Verde

Acabo de vir do interior da ilha de Santiago e apesar das inúmeras imagens de beleza verdejante que recolhi, uma me deixou triste: "o bananal de Santa Cruz ... desapareceu!" As bananeiras foram todas dizimadas e só sobrou o campo de limoeiros para alegrar a paisagem. Mas são precisamente estes limoeiros que me trazem hoje o tema de meu artigo: o papilio demodocus.

Como já vos tinha dito, muitas das horas de minha adolescência, passei-as a estudar e a coleccionar insectos. E a ordem mais atractiva aos olhos é sem dúvida a dos Lepidoptera ou das borboletas e traças. Mais um livro da colecção "Ver e Saber" da Verbo, me ajudou a apreciar estes coloridos insectos. Em Cabo Verde encontramos uma variedade razoável de lepidópteros, desde vistosas borboletas diurnas, cinzentas "bambalutas" nocturnas, traças e singelas pequenas borboletas.

Já adulto, trabalhei no então INIA (Instituto Nacional de Investigação Agrária) e naquele tempo a luta integrada contra as pragas agrícolas era levada a sério. E por mais lindas que sejam as nossas borboletas, muitas delas são as progenitoras de lagartas perigosíssimas para as culturas (desde tomateiros, couves, batata, etc). Assim, foi com desgosto que me apercebi que muitas das nossas culturas estão a morrer porque ... talvez os bons velhos tempos do INIA já eram! Mas os limoeiros de Santa Cruz pareciam saudáveis. Será que não estavam a ser atacadas por pragas? Talvez o insecto responsável está quase extinto! Que pena diria o coleccionador de borboletas em mim. É que a tal praga do limoeiro não é nada mais nada menos do que a lagarta que dá origem à borboleta mais vistosa de Cabo Verde, o nosso Papilo do Limoeiro: o papilio demodocus.

Aliás, era o principal insecto da minha colecção. A lagarta deste animal é estranha e tem dois falsos olhos (as manchas que aparecerão nas asas mais tarde). Uma vez, recolhi algumas destas belíssimas lagartas (gorduchinhas) e coloquei-as numa caixa envidraçada onde tive o cuidado de inserir várias folhas de limoeiro. Poucos dias depois começou o processo da metamorfose. As crisálidas já não eram tão bonitas mas deixaram escapar mais tarde as lindas borboletas que ansiosamente esperava. Encontrei na Internet uma montagem de fotografias que retrata esta evolução e apresento-a ao lado.

Embora raras, as borboletas cabo-verdianas têm sido algumas vezes homenageadas e a filatelia não fica atrás, como podem ver pelos envelopes do primeiro dia pertencentes à minha colecção:



Como se pode ver, o papilio demodocus está representado no 3º selo do 1º envelope.
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Domingo, 03.08.08

Pidjiguiti, apenas o vejo no selo



Nunca visitei esse "punho" mas admiro e prezo muito o selo cabo-verdiano comemorativo do 20º aniversário do Massacre de Pidjiguiti. O envelope do primeiro dia ainda é mais vibrante. Apreciem-no!

Mas ... já ninguém neste país (ou quase) se lembra da importância que a este dia (3 de Agosto) lhe davam os dirigentes do PAIGC aqui em Cabo Verde. Era até feriado nacional. Não sou o único a manifestar esta estranheza, vejam o que Miguel Barbosa apregoava há já um ano no seu blog Ziquizira:
"Lembro-me de que na escola primária tínhamos um texto alusivo a essa data e de quão importante era para a Historia de nosso país. Hoje em dia ninguém mais fala no Massacre de Pidjiguiti, nem sequer nosso partido africano que a toda a hora nos tenta convencer de que nos é credor da independência, no que parece ser mais uma tentativa (Camarada Estaline está entre nós!) de reescrever a História."
Ao que parece, os estivadores do porto de Pidjiguiti eram explorados e reivindicavam melhores salários das várias companhias exportadoras que precisavam de seus serviços. Vejamos um extracto do texto intitulado:

"...Acordo estabelecido, as várias firmas comerciais começaram a pagar aos marinheiros o novo salário. Porém, a Casa Gouveia não procedeu ao aumento e continuou a pagar pela tabela do ano anterior. Passaram-se meses e os marinheiros questionavam o gerente - na altura o ex-funcionário do quadro administrativo Intendente Carreira - sem resultados e até com uma certa sobranceria, tique que lhe deve ter ficado dos tempos de funcionário administrativo. Com o descontentamento a aumentar e ânimos cada vez mais exaltados se chegou à tristemente célebre tarde de 3 de Agosto de 1959."
Carreira
era nada mais nada menos que o conhecido e incontornável investigador cabo-verdiano António Carreira. É engraçado como a casmurrice deste valoroso cabo-verdiano deu origem à morte de 50 estivadores (segundo o PAIGC) e que muitos escamoteiam este facto infeliz na vida do conhecido historiador. Não foi ele que deu a ordem de matar, vejam mais esta parte da narrativa de Mário Dias:
"Entretanto, o comandante militar, tenente-coronel Filipe Rodrigues, chegado ao local inteirou-se da situação e, ao ver aquele grupo armado de remos, paus, etc. a marchar agressivamente em direcção à Casa Gouveia, deu ordens aos polícias para dispararem por ser a única forma de os deter."
Este texto do "furriel dos comandos Mário Dias, [que] foi um dos homens que esteve presente, quando o exército interveio em Pidjiguiti, e o seu testemunho é extremamente elucidativo, pois permite perceber o papel do exército neste drama, e filtrar a verdade dos acontecimentos", dá a visão de um português que mostra ter o PAIGC se aproveitado do facto para tirar dividendos políticos:
"O PAIGC aproveitou-se inteligentemente deste movimento, como sempre fez - o que só nos merece admiração - para conquistar mais uns tantos seguidores."
Não obstante as opiniões, o que é certo é que o dito massacre (politicamente aproveitado ou não) foi o ponto crucial da reviravolta da história em direcção à independência da Guiné e de Cabo Verde. Poderão disso se aperceber no clip de vídeo encontrado aqui e cujos 90 primeiros segundos se seguem:

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Domingo, 29.06.08

O Badio entre o Betacismo e o Metaplasmo

Vou falar-vos da versão mais lógica e menos conhecida da origem da palavra "badiu" , que tem vários significados mas que hoje identifica o habitante da ilha de Santiago de Cabo Verde.

Mas,... quem sou eu para resolver falar de assuntos de linguística, se a minha formação é da área das chamadas ciências exactas?

Em primeiro lugar, neste blog, os artigos têm sempre o tal cunho pessoal e não devem ser considerados artigos científicos. Em segundo lugar, eu sempre me desenvencilhei bem em matemática (a disciplina em que melhores notas apanhava) o que me estimulava as células cinzentas da região cerebral também responsável pelos dotes linguísticos. É assim que apanhei o gosto pelo estudo da origem das palavras e a nossa língua cabo-verdiana me trouxe e traz um campo fértil e "gostoso" de pesquisa (deveras transdisciplinar) nesse domínio.

A rigor, o "badiu" designa o camponês do interior da ilha de Santiago. Tanto mais que as expressões (antigas) "badiu di fora" (de fora da cidade), "badiu burro" (retratando o carácter campónio do iletrado indivíduo) e "badiu di pé ratchado" (indicando as gretas das ourelas dos descalços pés, próprias do contacto desses mesmos pés, com a lama pedregosa dos campos cultivados) reforçam a natureza campesina do mesmo. Hoje estas expressões não têm cabimento.

A vida difícil acabou por levar o "Badiu" a migrar para outras ilhas (sec. XIX e seguintes) onde os habitantes os identificavam como oriundos da ilha de Santiago, generalizando o termo a todos os habitantes dessa ilha, incluindo os da cidade da Praia. Estes, até aos anos setenta do século XX, sabiam que o termo "badiu" lhes servia para designar os que provinham do interior de Santiago.

Vejamos agora a explicação mais conhecida da origem do termo "badiu" que em língua portuguesa se diz "badio". NB: usarei doravante o termo português badio e sem aspas.

Premissa nº1: muitas palavras do cabo-verdiano com sílabas começadas pela letra b, provieram de palavras do português com sílabas começadas pela letra v : baca, bento, cabalo, balenti, bedjo, nobo, nabadja, nabega, coba, bruga, besgu, etc. O fenómeno linguístico em causa é conhecido por betacismo

Premissa nº2: muitos escravos conseguiam fugir e deambulavam pelas montanhas e vales recônditos de Santiago. Eram chamados de "negros fujões".

Construção da explicação da origem da palavra: Esses negros fujões passavam privações e se organizavam para vir assaltar as casas na cidade e roubar comida. "Lá vêm aqueles vadios, desgraçados, fogo neles!" exclamavam as autoridades portuguesas em face dessas ocorrências. E a palavra vadio foi rapidamente passada pelos cabo-verdianos, para badio.

Esta é a versão conhecida e que, a meu ver, "mete água" por todos os lados:
  • O betacismo não é tão presente assim, que possa ser generalizado. Há muitos mais casos de conservação do v na passagem do português para o cabo-verdiano, do que à primeira vista parece. Aliás, se vadio desse badio, então porque não diríamos badiachi em vez vadiachi, ou "forti bâdia, nha guenti!" em vez de "forti vâdia, nha guenti!"
  • A maioria dos termos em b de que falamos, transitou já com o b do linguarejar dos colonos portugueses de origem nortenha, que diziam (e dizem): binho, bamos, bentania, biola, etc. E não vejo nortenhos dizer "os badios são aqueles que andam a badear por aí"
  • Mal vejo os camponeses cabo-verdianos a interiorizar um termo que era depreciativo e até pejorativo.
  • Como poderiam vadiar os camponeses, se por o serem nestas ilhas, se tornavam forçosamente sedentários e não nómadas?
  • A maior parte dos defensores do badio proveniente de vadio, não são Badios! (infiram vocês o resto)
Agora vou contar-vos a cena que na minha juventude presenciei e que desde então me convenceu do quão verossímil seria uma outra explicação.

Assisti a um momento cultural no então Instituto Cabo-verdiano do Livro, nos finais da década de setenta (do século passado). Ali se encontravam alguns intelectuais cabo-verdianos, entre os quais Felix Monteiro. Este, no decorrer de um debate, apresentou a seguinte "tese" sobre uma outra origem do vocábulo badio:

Badio vem de baldio, tendo havido a queda da letra l.

A argumentação era a de que os camponeses (estamos já no século XVIII) que forneciam frescos à cidade, cultivavam-nos nos arrabaldes da mesma ou seja nos terrenos baldios, também designados apenas por baldios.

Frases como: "vamos à praça comprar as hortaliças dos baldios (terrenos)" eram interpretadas pelos demais como "...hortaliças dos Baldios (grupo de pessoas)

A transformação linguística subjacente (supressão de fonemas) é conhecida por Metaplasmo e no caso vertente, onde o som que desaparece está no meio da palavra é uma síncope.

Baldio passa a Baldio (com o a mudo), a Badio, e a Badiu

Esta é a versão que mais faz sentido, pois:
  • O significado de camponês de "fora" se coaduna com o do habitante dos baldios.
  • A transformação por síncope é mais natural do que a por betacismo
  • A conotação não é sentida pelos próprios como desprestigiante (logo facilmente adoptada pelos mesmos).
  • Identificar alguém como baldio (dos arrabaldes) é mais evidente (traje e função na sociedade) do que identificá-lo como vadio (negro fujão).
  • Os terrenos baldios estavam "na moda" no tempo do Marquês de Pombal e foram ao longo dos anos em Portugal, sempre objecto de política agrária, polémica e referências.
  • Os habitantes da cidade da Praia não se consideravam Badios!
Vou então deixar-vos reflectir sobre:

O absurdo do Badio porvir de Vadio
&
A lógica e o fazer sentido, do Badio porvir de Baldio

Só encontrei uma referência na Internet que fale da origem baldio; mas ela é em língua alemã. Ei-la aqui

publicado por jorsoubrito às 07:59 | link do post | comentar
Domingo, 22.06.08

Genealogistas cabo-verdianos da actualidade


Meus caros, após uma semana, cá estou eu para me classificar como um "amante da Genealogia Social". Na realidade, esta paixão é um hobby que desenvolvo, mais na óptica do coleccionador do que na de um académico. Sinto-me congratulado quando descubro um novo parente ou, melhor ainda, quando um parente me descobre e envia dados e fotos para colocar na árvore www.barrosbrito.com. Aproveito também para nesse site ser o mais didáctico possível, colocando factos históricos e eventos dignos de nota, dos indivíduos que nele figuram. A colaboração de todos é bem-vinda.

Mas, a Genealogia académica cabo-verdiana, conta com um meticuloso e sofisticado investigador, o Dr. João Manuel Ferro Nobre de Oliveira, o autor de: A Imprensa Cabo-verdiana (1820-1975) (Edição da Fundação Macau - Direcção dos serviços de Educação e Juventude; Setembro de 1998, por ocasião da visita oficial a Cabo Verde do Governador de Macau, General Vasco Rocha Vieira. ISBN 972-658-017-X). Este historiador, está há bastantes anos a trabalhar na História das Famílias Cabo-verdianas, obra que dentro de um a dois anos dará à estampa e que todos nós ansiamos perdidamente. Oliveira tem tudo devidamente certificado e apoiado em fontes fidedignas.

Porém, muito mais social do que eu, está o Dr. Luís António dos Santos Júnior. Este grande genealogista, não só desenvolve na Internet, uma árvore genealógica (Hesperitanas) de todos os cabo-verdianos que tenham conexões de parentesco com parentes dele, Luís (mesmo que o não sejam dele parentes; ver a nota introdutória), mas também criou um Fórum de Discussão de Genealogia Hesperitana. Neste fórum, podem-se conjugar esforços e fazer especulações sobre eventuais laços de parentesco entre personagens do antigamente e de agora.

A ilha do Fogo tem sido o exemplo de cruzamentos consanguíneos e de famílias que se misturam e remisturam, para preservar a terra, para preservar o nome, para preservar "a raça", para ... Bem, o mais complicado é que os nomes completos se repetem na linhagem vertical (isto até é fácil de deslindar) mas também em linhagens paralelas de primos. O Dr. Adalberto António José Barbosa, desenvolveu um extraordinário trabalho genealógico publicado na Internet, em que poderemos navegar através das famílias: Barbosa, Henriques, Monteiro e Vasconcelos. Adalberto conseguiu trazer à luz, estes intrincados laços de parentesco, e vale a pena a consulta.

Há outras árvores cabo-verdianas na Internet, mas as duas que mencionei são-me bastante úteis, tanto mais que os autores são meus parentes.

Fica aqui o meu reconhecimento profundo a estes três genealogistas cabo-verdianos, pelo trabalho extraordinário que têm feito em prol da história das famílias destes dez grãozinhos de terra!


publicado por jorsoubrito às 21:50 | link do post | comentar
Domingo, 15.06.08

Cinco caminhos genealógicos

Porque me interesso pela Genealogia? Além de mim, muita gente gostaria de o saber! Há quem até torne mais lata a pergunta: "porque é que pessoas se interessam pela Genealogia?"

Antes de responder, pus-me a observar os dados que tinha e tornou-se-me óbvio que há várias razões para que haja interesse nesse ramo do saber. Mais, as motivações e os objectivos são tão diversos que podemos mesmo agrupá-los em categorias diferentes e, curioso, até disjuntas: há quem faça genealogia por motivos diametralmente opostos e há quem o faça por razões que nada têm a ver umas com as outras (nem convergentes, nem divergentes)

Deste modo, acabei ao longo destes anos, por classificar em cinco tipos, as motivações e as pessoas atrás de um empreendimento genealógico. A classificação que se segue é puramente subjectiva e é o modo como "vejo a questão":
  1. Genealogia académica - Quando a Genealogia é encarada como uma ciência, ela é exercida de maneira assaz rigorosa, corroborada por fontes seguras e comprovadas e observando as regras da investigação científica próprias das ciências humanas. A Universidade do Minho, por exemplo, tem um ambicioso programa de investigação genealógica em curso. Pelo mundo fora, assistem-se a várias teses de doutoramento em Genealogia. Também há investigadores que fazem estudos genealógicos por moto próprio, com vista à publicação de obras e\ou artigos.
  2. Genealogia elitista - Independentemente do natural gosto pelo conhecimento dos seus antepassados, muitos fazem genealogia para que se sintam distintos dos demais. Também os há que por razões de "sangue azul" e políticas (monárquicos) associam-se a um outro ramo do saber (a Heráldica) para traçar ramos genealógicos aristocráticos e plenos de brasões. Porém, a Heráldica e a Genealogia de famílias reais, são componentes essenciais dos estudos académicos já mencionados.
  3. Genealogia religiosa - Muitas religiões se interessam pela Genealogia, principalmente as cristãs. E isto por razões diversas. No entanto a dos Mormons é a que mais me impressiona: estes constroem as árvores genealógicas do mundo inteiro, por acharem ser de sua responsabilidade a realização de "ordenanças de salvação" dos que morreram, com vista à redenção de suas almas (portadores do sacerdócio, realizam estas ordenanças em pessoas vivas da congregação, em favor das que tenham falecido sem as terem feito, a partir de dados provenientes da árvore pesquisada e estas têm a oportunidade de se redimir)
  4. Genealogia social - Chamo de genealogia social aquela a que muitos se dedicam por curiosidade. Saber que "fulano é meu parente" ou poder dizer que "... sou descendente directo do Marquês de Pombal!" ou mesmo o de honrar os antepassados, procurando conhecê-los. Ter um gráfico (árvore genealógica) emoldurado ou arquivado, da sua família ascendente é para muitos assaz importante. Muitas vezes se entra em clubes e associações de genealogia, ou se preenchem "softwares" de genealogia. Torna-se uma espécie de hobby
  5. Genealogia utilitária - Trata-se da prestação de serviços e do desenvolvimento comercial da Genealogia. Como se sabe, muita gente precisa de estudos genealógicos para provar a sua ascendência (processos de nacionalidade) ou para inserir em processos de herança. Outros gostariam de conhecer "avós perdidos" ou de saber de doenças hereditárias (incidência de câncer ou de diabetes) na família. Outros ainda queriam ter um estudo genealógico sobre a história de suas famílias e não sabendo fazê-lo, encomendam-no. Assim, encontramos genealogistas profissionais que vendem os seus serviços. A indústria de programas informáticos tem um sector genealogia, que naturalmente requer profissionais atentos.
Não me vou classificar agora, deixando aos meus leitores a oportunidade de me catalogar entre os grupos que mencionei. Voltarei na próxima semana para melhor ilustrar este assunto.

Recomendo agora a leitura dum sublime texto de Pedro Wilson Carrano Albuquerque, onde poderão conhecer as diversas utilidades da Genealogia e do interesse do seu estudo. Façam clique no link de Considerações sobre a Genealogia
publicado por jorsoubrito às 13:14 | link do post | comentar
Domingo, 27.04.08

Rua "Sala Bandera": a sala de visitas desta Praya de 30 citadinos lustros

Antes de mais, (além de D. Pedro V que se casara neste dia) queria dar os parabéns a três heróis nascidos a 29 de Abril:
  • À Cidade da Praia, pela sua tenacidade e vigor
  • À falecida cidadã da Praia, Elsa Azevedo pela coragem e fé
  • Ao Comandante Pedro Pires, nosso Presidente da República e Combatente da Pátria
Posto isto, estamos todos carecas de saber que no dia 29 de Abril se comemoram os 30 lustros (150 anos) desta cidade ainda com pouco lustro. Por isso não vou armar-me em carapau de corrida, comentando os altos e baixos desta minha mui querida cidade, tanto mais que a razão de ter engordado, não tem nada a ver com a dos que a governam, ou com a dos que pretendem fazê-lo. Vou mas é evocar algumas recordações:

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Recordo-me sim, de ter brincado numa praça Alexandre Albuquerque cheia de flores, húmidos canteiros verdes com minhocas e sapos, vendedeiras de doces de leite (Nha Laia e Nha Ida), guarda coxo e zarolho de vara em riste (Nhu Pedro), "musgueros" no coreto e crianças brincando à roda ou ao "soldado, cabo, furriel...", jovens indo e vindo a passear no passeio cimentado que dava para a rua principal da cidade (já vou falar dela) e outros que faziam a circunvolução da praça pelo passeio interior. Ás 20h em ponto, todos se punham em sentido com o hino nacional português que troava pelos altifalantes do Rádio-Club. Logo que os altifalantes se calavam, corria eu para casa jantar (ai de mim se não o fizesse!)

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Recordo-me sim, que quando comecei a fazer colecção de selos, tinha muito orgulho em mostrar o meu álbum favorito, o de Cabo Verde. Todas as vezes que o mostrava à minha mãe, esta (funcionária dos CTT) atardava-se na página que vos apresento ao lado, e apontava com ar triste, para os selos comemorativos do centésimo aniversário da elevação da Praia a cidade, contando que a degradação do estado de saúde de minha tia e madrinha Alice, era motivado por esta ter dado muito de si aquando das citadas comemorações. Alice era professora primária e estava envolvida na organização duma grande quermesse que teria lugar por ocasião desse centenário. Ficava altas horas pela noite dentro a recortar papéis de seda e de lustro, a fazer colagens, cartazes e outras coisas, sob uma luz fraca e tremida.

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Nesse tempo, antes da Independência, a rua principal da cidade era a Rua Sá da Bandeira. Rua do Banco Nacional Ultramarino, da Casa do Leão, da Farmácia Leão, do Cachito, da Adega do Leão, da Serbam, do Antoninho Mujota, das Galerias Praia, do "Pilorinho", da casa di Nhu Pipi, da Dona Celina, do Parque Automóvel, da casa di Nhu Bispo!

Lendo as crónicas de Carla Amante da Rosa e tendo visto o filme "A Ilha dos Escravos", não se poderia deixar de dar valor ao homem que num único dia, decretou a abolição da escravatura em Cabo Verde, fez subir Mindelo à categoria de vila e deu à Praia a dignidade de cidade: Bernardo de Sá Nogueira de Figueiredo, o então Visconde de Sá da Bandeira.

Bem merecido o nome dessa rua principal, o de Sá da Bandeira. Porém, veio a Independência e os revolucionários combatentes da pátria, trataram logo de volatilizar todos os vestígios dos heróis portugueses e substituir os nomes das ruas, por outros nomes mais consentâneos com a Revolução e com a África. Assim, Sá da Bandeira teve de ceder seu nome a favor do de Amílcar Cabral e a rua foi promovida a Avenida!

Mais tarde, quando chegou a 2ª República, os novos governantes restituíram os nomes das ruas aos ilustres que durante décadas, tinham seus nomes nas placas toponímicas. Mas.... quem ousaria retirar o de Amílcar Cabral das placas da "Rua Sala Bandera", como ainda os mais velhos a chamam?

Assim, ficamos sem a justa homenagem a esse corajoso e digno estadista!

Por isso, proponho, que nesta comemoração dos 150 anos da cidade da Praia, se dê o nome de Sá da Bandeira a uma de suas ruas!

A rua que proponho, antigamente rua Brandão de Melo, fica próxima da zona onde escravos apanhavam água, a "Aguada da Praya" - local mais tarde conhecido por "quintal di burro" (ver gravura do lado esquerdo). Razões da proposta: a proximidade evocada do local que lembra a abolição da escravatura, a existência antiga dessa rua, o ser paralela à antiga Rua Sá da Bandeira e ao facto de poucos conhecerem seu nome actual. Vejam o GoogleMap à direita e o diaporama que se segue:


publicado por jorsoubrito às 19:43 | link do post | comentar | ver comentários (2)
Sábado, 19.04.08

Acácia Americana - a árvore entre a asma e um sublime mel de abelha

Prosopis Juliflora - como me posso esquecer deste nome?... se em pelo menos seis circunstâncias este nome foi esculpido na argamassa de meu encéfalo. Ei-las:
  1. Comecei a coleccionar folhas entre páginas de livros grossos e tenho um olfacto apurado.
  2. Participei nas primeiras plantações de árvores em Cabo Verde, após a independência.
  3. Doutorei-me no Arizona, adoro grelhados (barbecues) e aprecio mel de abelha.
  4. Tenho António Advino Sabino entre meus melhores amigos e o meu PhD é em Ciências do Solo e da Água.
  5. Escrevi 50% do Relatório de Cabo Verde à Conferência sobre o Ambiente e Desenvolvimento - Rio 92
  6. Via (e vejo) a praça Alexandre Albuquerque das janelas de minha casa, sofria de bronquite asmática em criança e tenho um filho alérgico a pólen.
Cada um destes pontos dá para escrever uma longa crónica. Tenham então a paciência de ler estas mais reduzidas crónicas que se seguem:
  1. Como já tive a ocasião de vos deixar saber, na minha puberdade e adolescência adorava conviver com a Natureza e fazia colecções de insectos (com um anexo de borboletas), rochas, conchas e folhas de plantas que prensava entre as páginas de velhos e grossos livros de contabilidade do meu avô materno, comerciante falecido em 1948. A Praia-Negra e a encosta debaixo do Hospital, eram meus lugares habituais de recolha das mais diversas amostras. A referida encosta era atapetada de Jatropha Curcas, o Pinhão Manso brasileiro que em Cabo Verde responde pelo nome de Purgueira; em poucos anos a acácia americana (a tal Prosopis Juliflora) substituiu a purgueira e acabei por tentar prensar as folhas e flores dessa acácia entre as tais páginas de contabilidade. Foi nesta tentativa de prensar as folhas da acácia, que o meu olfacto apurado discerniu um odor vagamente familiar que reportei porvir da seiva das folhas em questão. Poucos dias depois, um amigo mais velho transfigurou-se, passando de um cenho franzido (ao cheirar as folhas esfareladas que eu lhe estendia entre os dedos) a um rasgado sorriso, proferindo entre gargalhadas: "Queli... tâ tchera só cabxxxxx!" e cheirava mesmo a sémen humano fresco! Foi a primeira marca indelével da Prosopis na minha mente.
  2. Após a Independência de Cabo Verde, em 1975, o Governo defrontou-se logo com um problema candente: Energia! o Mundo sofria ainda dos efeitos do "crash" petrolífero de 1973 e o humilde camponês cabo-verdiano cozinhava cachupa com lenha (esta representava mais de 80% do combustível rural). A FAO aconselhou o Governo a desencadear uma vasta campanha de florestação tendo financiado conjuntamente com a cooperação belga, a introdução maciça da acácia americana. Esta não só era resistente à seca, como também, em menos de 3 anos, iria produzir bastante lenha e vagens para as cabras e demais alimárias. E sendo assim, lá estou eu a participar nestas campanhas de florestação com saquetas de Julifloras entre as mãos! (2ª punção cerebral).
  3. Ao chegar a Tucson para estudar na Universidade do Arizona, reparei que ali também havia nas ruas uma planta muito semelhante à nossa Prosopis Juliflora. Chamavam-na de Mesquite e diziam que dava um carvão formidável para os famosos barbecue. Mais tarde vim a saber, que o mel das abelhas que sugavam o néctar das flores dessa árvore, era considerado pelos entendidos, como um mel monofloral classificado entre os melhores do mundo. Quando usei o carvão de Mesquite (mais caro) e experimentei o não menos caro "Arizona mesquite honey", adoptei-os e assim a Prosopis Juliflora Velutina (a espécie do Arizona) foi a 3ª marca indelével da acácia nas minhas memórias.
  4. Tinha então a acácia americana em muito boa conta e podia-se até dizer que era um fã deste ser vivo extraordinário. Até que em Tucson conheci de perto António Advino Sabino, o engenheiro agrónomo responsável pelos fantásticos trabalhos de correcção torrencial, luta contra a erosão das encostas, enfim, o conhecido Director Geral da Conservação de Solos da jovem República de Cabo Verde. Uma grande amizade nasceu e um belo dia, conversa puxa conversa, lá estava eu a gabar as virtudes da Prosopis... quando Sabino me interrompe quase que vociferando: "Ó rapaz, tchá diss! Ês é maior praga quês btá na Cabo Verde!" ... e lá foi ele me elucidando que a referida acácia tinha sido banida internacionalmente (proibida mesmo) pelas suas características infestantes, que só no Arizona era permitida por causa do mel e do carvão ... e em Cabo Verde pela ignorância dos então governantes. Mais dizia ele que a planta suga a água a mais de 4 metros de profundidade (o lençol freático da ilha do Maio onde temos o maior perímetro de Julifloras, desceu de tal modo que os poços secaram) e que onde ela entra nada mais cresce! Antes que meu amigo se tornasse apoplético, apressei-me a concordar com ele, mas céptico e cauteloso como era (e sou), lá fui agendando incursões às bibliotecas para me elucidar (a Internet ainda não era para nós, pois estávamos em 1987). O que li e aprendi, conjugado com o que de solos percebia, me fizeram doravante alinhar ao lado de Sabino, na luta contra a continuação do uso indevido da acácia americana em Cabo Verde. Foi esta a 4ª marca!
  5. Regressado ao INIDA em 1990 com meu PhD acabado, fui chamado a chefiar o Departamento de Recursos Naturais desse Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário. Em 1991 Sabino tornou-se Presidente do INIDA e juntos fomos a algumas conferências sobre o Ambiente. Eram oportunidades para desancar sobre a Juliflora e uma vez, numa entrevista à RCV no Mindelo, contrariei a campanha do Presidente da Câmara em prol da plantação da Prosopis,... alegando que, "a questão não é como alguns andam aí a propalar." Só que a boca resvalou para "...andam aí a papaguear!" Entretanto, Sabino orgulhava-se de ter introduzido no país uma espécie muito melhor, a Acacia holosericea (de origem australiana) que, também resistente à seca, não era nem infestante, nem esterilizava os solos. Quanto a mim, fui convidado a integrar uma equipa de quatro consultores para escrever o relatório de Cabo Verde à Conferência do Rio e aproveitei para nos 25% que me couberam, escrever 50% do relatório e dizer entre outras coisas, o que competia sobre o uso da Prosopis Juliflora em Cabo Verde. Porém, salientei que pelo facto de Cabo Verde possuir uma abelha europeia dócil (uma Apis Mellifera diferente da feroz abelha africana) e reputada por fabricar um bom mel, devia-se apostar na apicultura e aproveitar melhor as acácias. Este relatório impôs-me a quinta marca!
  6. Com esta recente marca avivada na cabeça, tudo era pretexto para maldizer a acácia americana. E para cúmulo, a paisagem que vislumbrava através das janelas da minha casa era por demais elucidativa do poder aniquilador da famigerada Prosopis. Vejam o estado calamitoso dos canteiros da Praça Alexandre Albuquerque, cuja foto da época (1991) vos apresento ao lado. Nesse ano nasceu meu filho Mauro, que pouco tempo depois acusava violentos sintomas de falta de ar, rapidamente diagnosticados como provocados por alergia a pólen de acácias. Por ter sido asmático em criança, sabia avaliar o sofrimento do petiz. Assim, creio ser esta, entre todas, a pior referência à Prosopis !
Obrigado pela vossa paciência em ler estas linhas. Que aconselharia para as políticas concernentes a esta acácia?

Obrigado e até ao próximo Domingo.
publicado por jorsoubrito às 22:46 | link do post | comentar | ver comentários (1)
Sábado, 29.03.08

Maior fraude da Zoologia, ou a superficialidade da má-fé

No último artigo (de 26-3-2008) do blog Amante da Rosa, a autora apresenta uma curiosa história sobre o Lagarto Gigante do Jardim das Hespérides (leia-se Cabo Verde).

Numa correspondência que trocamos, esta amiga bloguista me convida a escrever algo sobre o assunto. Fiquei um pouco dividido, pois motivações diversas me compeliam em direcções antagónicas:
  • Queria escrever algo para me insurgir contra o escárnio e as banalidades proferidas pela escritora Maria Estela Guedes
  • Não queria escrever sobre o lagarto, pois ainda não abrira um blog de discussão científica geral.
  • Queria escrever sobre o assunto, porque um antepassado meu foi parte envolvida nesta área da herptologia.
  • Não queria escrever porque tinha planeado outro artigo para este Domingo (já o prometera a um amigo)
  • Queria escrever porque me senti lisonjeado ao receber tal convite de uma dama que mantém um dos melhores (o mais instrutivo) blogs de Cabo Verde.
  • Não queria escrever porque não é muita coisa o que poderia dizer sobre este réptil
Acabei por decidir escrever pois as razões para tal me pareciam mais fortes!

Dado a que estou a escrever num blog autobiográfico e centrado na minha pessoa, eis em primeiro lugar um histórico da minha relação com o réptil:

Em criança, deleitava-me a ler os livros da colecção Ver & Saber da editorial Verbo. O número nove desta colecção intitulava-se "os Répteis". Tinha eu dez anos e fiquei a saber que os répteis se dividiam em quatro ordens com os seguintes nomes genéricos: sáurios (lagartos), quelónios (tararugas), ofídios (cobras) e crocodilianos (crocodilos). Naturalmente que as duas primeiras ordens me despertaram mais a curiosidade, pois eram aquelas que existiam em Cabo Verde. Como na nossa terra as tartarugas eram apenas as marinhas, lá me contentava a observar as lagartixas e osgas e cheguei até a dissecar lagartixas que colegas "pescavam" com moscas enfiadas em anzóis. Querendo ler outros livros e perguntando a quem soubesse, tive então a oportunidade de saber da existência do lagarto gigante do ilhéu Raso. Sonhava em poder lá ir observá-lo de perto.

Um belo dia (Dezembro de 1976) pude então observar dois exemplares vivos de um sáurio, com talvez 50 cm, no Jardim Zoológico de Lisboa, cuja legenda do "aquário" dizia "Osgas gigantes de Cabo Verde". Será que eram osgas? Será que eles se enganaram na proveniência (ou era "bleuff"). Não me recordo do nome científico, mas não me esqueci da cena nem do gigantismo da "lagartixa".

Mais tarde, vim a dirigir o Departamento de Recursos Naturais do INIDA (Instituto Nacional de Investigação e Desenvolvimento Agrário) e a secção ligada à biodiversidade se "divertia" com pássaros e répteis de Cabo Verde; Hazevoet era um cooperante que connosco trabalhava e tivemos um dia uma interessante conversa sobre o animal reptiliano. Em 1991, fiz parte da equipa de consultores (éramos quatro) que preparou o Relatório Nacional para a Conferência do Rio sobre o Ambiente. Várias vezes entre nós nomeávamos o Macrocincus Coctei como exemplo de espécie extinta.

Recentemente, fiquei a saber que um tio-tetravô meu, o Doutor Francisco Frederico Hopffer (muitas vezes lembrado por minha avó materna), era também um amante da biologia e correspondia-se com Barbosa du Bocage, insigne naturalista português a quem enviara exemplares do lagarto em causa, como menciona Amante da Rosa em seu artigo.

Vejamos agora um extracto do LIVRO BRANCO SOBRE O ESTADO DO AMBIENTE que o nosso Ministério do Ambiente Agricultura e Pescas fez publicar em 2004:
"Em relação à colheita de material biológico de origem animal, pode-se exemplificar com a colheita de exemplares de répteis,mais concretamente Macroscincus coctei (Lagarto gigante de Cabo Verde com cerca de 60 cm de comprimento, já extinto). Se se quantificar os colectores que fizeram recolhas dessa espécie em Cabo Verde (Troschel em 1875: Bocaje 1896, Peracca 1891; Schiaretti 1891; Jamrack 1891; Green 1876 etc) e os exemplares existentes em vários Museus do mundo como por exemplo na Itália (Turin, Genoae e Florence - com 26 exemplares) em Londres (London Zoo, Natural History Museum of London) e em Portugal, e 45 exemplares importados no fim do século XIX ou seja, no Verão de 1891, pelo Sr. M. G. Peracca, poder-se-à concluir que a extinção dessa espécie se deve, em parte, à colheita desregrada de exemplares da espécie."
Como podem constatar, há vários sítios onde ainda hoje se pode lá ir medir o tamanho destes animais. Como pode Estela Guedes apelidar de "fraude da Zoologia" relegando a dimensão do sáurio para meros 17cm? A fotografia ao lado deste parágrafo, é elucidativa do tamanho bem superior a 17cm (no entanto um pouco inferior aos 570 mm de Bocage) dum dos 26 exemplares conservados nos museus italianos (o italiano Leonardo Fea, foi um dos primeiros naturalistas a ver exemplares vivos do Macroscincus)

Estudos profundos e altamente científicos, têm sido feitos a respeito deste lagarto. Menciono um recente, em que o DNA de amostras de 75 lagartixas cabo-verdianas actuais foi comparado com o de amostras de 16 Macroscincus conservados em museus. Este estudo visa determinar se o gigantismo do Macroscincus era devido a uma evolução de uma Mabuya (as lagartixas CV actuais) ou de uma outra espécie paralela.
A respeito de estudos do passado, deixo-vos agora com mais um extracto do Livro Branco:
Outro recurso natural cuja depredação conduziu à sua extinção é o lagarto gigante, Macroscincus coctei (Balouet & Alibert, 1989; Barillie & Groombridje, 1996), espécie de réptil endémico de Cabo Verde. Durante o século XIX, a Administração Colonial Portuguesa exilou para o ilhéu Branco os infractores à lei. Admite-se que os exilados tivessem utilizado para a sua alimentação peixes, aves marinhas, bem como capturado répteis, dos quais constaria o Macroscincus coctei (Bocage, 1873, in Hazevoet, 1995). Hazevoet (1995), cita J. da Silva Feijó que deu conta da utilização da pele de Macroscincus coctei (pelos habitantes das ilhas vizinhas) para o fabrico de sapatos. Alexander (1898a, citado por Hazevoet, 1995) ainda em 1897, encontrou esse réptil nos ilhéus Raso e Branco. Em 1912, Friedlaender (1913-citado por Hazevoet, 1995), considerou-o uma espécie muito rara para o ilhéu Raso. Nos ilhéus Branco e Raso, por exemplo, havia ainda nos fins do século XIX, exemplares de Macroscincus coctei.

Como não se trata de um artigo científico, mas de uma "espécie de nota ensaísta de rodapé", não me alargarei em pormenores outros como o da classificação taxonómica, da morfologia, do modus vivendi do animal, ou mesmo do seu surgimento em Cabo Verde.

Fiquem bem e até o próximo Domingo.

publicado por jorsoubrito às 23:28 | link do post | comentar | ver comentários (2)

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